6 de dez de 2017

Nem tão estranho

Hoje acordei e por uma leve fração de segundo me perguntei quem era essa sonolenta pessoa de bochechas rosadas ao meu lado. Foi então que lembrei da noite passada e por mais algumas frações de segundo quis me esconder embaixo das cobertas. Mas depois lembrei que sou uma adulta e independente que não deve nada a ninguém (exceto ao banco).

Há anos eu não sabia o que era uma balada, aquele puntspunts, depois uns funks "do momento" um pagodinho aqui, outro sertanejo e voltam as mesmas músicas do início. Um eterno ciclo de músicas e um eterno ciclo de "oi, queria te conhecer?". Nada contra, mas essa nunca foi a minha praia. Sinto obrigação de dizer "não" sempre que alguém pergunta se pode me conhecer, quando você conhece uma pessoa você simplesmente conhece. Você não pede. "Oi, posso falar um oi?" ou "oi, posso perguntar onde você mora?" imagino lá na frente "oi posso me apaixonar?" ou "oi, posso gostar de você?".

Talvez eu tenha exagerado, mas é que essas conversas soam tão padronizadas entende? Vocês "se conhecem" só porque ele/ela perguntou seu nome e idade acha que é conhecer, depois vocês dão uns beijos e se despedem, ou dão uns beijos e vão juntos para casa, no dia seguinte ninguém é de ninguém. No próximo final de semana: repete.

Depois de dizer não para uns cinco "oi, posso te conhecer?"e mais incontáveis nãos para homens estúpidos que seguraram meu braço, minha mão ou meu ombro. Já estava dando como perdida aquela noite infeliz. Eis que eu peguei uma latinha do balde e um cara disse "pode pegar, mas pelo menos se apresenta né?" E riu. Claro que eu não entendi nada, mas você já deve ter entendido. Sim, eu achei que estava pegando a cerveja do meu balde com as minhas amigas, mas era o balde de um cidadão desconhecido e a minha cara caiu no chão na hora.

"Desculpa, não percebi. Toma." É eu ia devolver aberta, mas foi a coisa mais sensata que me ocorreu. Ele esticou o copo, "meu nome é Bruno e eu gosto de beber acompanhado". Me senti obrigada a ser gentil depois da cagada inicial. "Eu sou Letícia...Hn... eu gosto de roubar de estranhos." Ele riu (riu mesmo sabe? Como se fosse um piadão). "Ah Letícia, mas agora eu não sou tão estranho assim, sei pelo menos o seu nome e garanto que você vai amar me contar a sua vida toda agora." É eu não tive reação para essa frase, então disse algo óbvio "Se eu te contar vou ter que te matar." Ele riu de novo, como se nunca tivesse ouvido essa! Quem nunca ouviu essa? "Então eu conto da minha." Foi só o que ele disse.

Bruno contou que passou para três cursos diferentes em 3 universidade diferentes, em 2011, depois 2012 e depois 2015. Ele fez um pouquinho de direito, filosofia e jornalismo. Mas percebeu que nada disso era a cara dele, direito é sério demais, filosofia viaja muito e jornalismo era muito divertido de estudar, mas parecia ruim de trabalhar. Bruno resolveu ficar atoa um tempo trabalhando de garçom e agora ele faz lindos arranjos numa floricultura. E adivinha? Ele se apaixonou por flores e plantas. Por isso colocou o nome da gata de margarida "ela é branquinha com pintinha amarela, igual uma margarida".

Foi como se a balada tivesse desaparecido. Até que ele diz "olha amanhã eu preciso acordar cedo, então eu vou embora agora, mas você pode vir conhecer a minha casa e a margarida. Senão hoje algum dia, porque a minha casa é bem bonita." E riu. Porque ele tinha essa mania linda e irritante de rir das coisas. Fomos. A casa era linda, a margarida branquinha de pintinha e o safado nem acordou cedo, mas ainda assim amei contar minha vida para um estranho-nem-tão-estranho-assim.

Por: Sabrina Lima