6 de nov de 2017

Ele era Sagitariano


Dono do sorriso mais lindo que eu já vi nessa vida. E não pense que eram dentes clareados no consultório e que viveram anos de aparelho, na verdade até tinham alguns tortinhos. O sorriso dele era lindo porque sorria com o rosto inteiro, com o corpo inteiro e essa energia passava para quem estivesse perto dele. Todo mundo sentia o astral ficar leve quando ele chegava. E de certa forma ele gostava disso, fazendo aquelas piadas só porque "gostava de ver gente mostrando os dentes." Foi uma das frases que ele disse quando nos conhecemos.

Gostaria de contar em detalhes como nos conhecemos, mas é um pouco complicado. Nos esbarramos na primeira vez que sai do Brasil, afinal brasileiro ama conversar com brasileiro fora do Brasil. Mas eu voltei e ele ficou. Foi a despedida mais difícil que já tive, nunca me senti tão conectada a alguém como eu me senti a ele. E daí que o tempo passou, a fila andou e ele apareceu assim do nada. Disse "oi" quando esbarrou comigo no corredor e aquilo foi o suficiente pra estremecer todas as bases do meu predinho.

Ele era direto e eu também. Não economizamos tempo no jogo de "ah faz tanto tempo" ou "será?". Mergulhamos de cabeça numa relação que parecia desenhada pelos deuses. A gente tinha tempo pra gente, a gente tinha tempo para os amigos, ninguém se cobrava, ele não tinha ciúmes e ele sempre topava tudo. Nenhuma vez ele disse não pra algo porque era diferente, muito pelo contrário ele escolhia o diferente em 100% das vezes.

Ah vai, todo mundo tem defeito. Ele falava demais às vezes e a gente brigava pra ver quem iria contar a história primeiro. E no fim a gente ria. Ele era muito exagerado em tudo. Eu posso ser exagerada em dizer que ele era exagerado que ainda seria pouco. Ele era exagerado no amor, na necessidade de liberdade, na vontade de viver, na curiosidade, na necessidade por conhecimento, no otimismo, na mania de fazer graça até em velório. Dramático por bobagem (fazia até biquinho), quase nunca acordava de mau humor, mas quando acontecia eram as piores primeiras horas do dia. Depois ele ficava mansinho e agia como se nada tivesse acontecido.

Todo dia era dia de riso. Todo dia era dia testar uma posição sexual diferente. Eu até hoje não me cansei de me surpreender com a sinceridade desse homem. Não importa o que ou quem, se quiser ouvir a verdade é pra ele que deve perguntar. Com um total de zero papas na língua ele faz uma pessoa ir do céu ao inferno, ou ao contrário, em segundos. Mas nunca faz por mal, é só o jeitinho dele de achar que não precisa de filtro entre a cabeça e a boca. Porque ele aguentava também, ele era pessoa pra confessar um crime, ou não porque o bichinho tinha a língua solta.

Quando ele dava pra refletir sobre a vida, pra que viemos, pra onde iremos e todas essas coisas que ultrapassam o plano físico que nós conhecemos, dava gosto de ver. Devido ao otimismo exagerado ele sempre achava que ia dar tudo certo. Que existindo ou não um Deus ele não tinha essa de castigar ninguém. Ficaríamos todos de boa, só porque ele era de boa o tempo todo.

Foi de boa também que a gente se despediu. Nos esbarramos por ai e ele sempre pergunta de mim. Há pouco tempo descobri que ele se mudou e foi morar no Chile uns meses, não sei quando volta ou se volta. Espero que sim, dizem que passarinho voa, mas que também volta para o ninho.

Por: Sabrina M. Lima