14 de out de 2017

Ele era Canceriano


Sabe aquele cara perfeito pra ser o paizão? O que ama crianças, o que ama a família, almoço de domingo, ficar em casa final de semana, escrever textão no dia dos namorados, não esquece uma data especial e está o tempo todo dizendo que te ama e o quanto você é importante pra ele? Se você não sabe, meus pêsames. Eu sei e posso dizer que é incrível receber tanta atenção assim de alguém que você ama. Acho que é tudo que todo mundo sonha.

Esse cara me amava. E muito! Era recíproco sim, não ficaria com ele se não fosse. Nós nos conhecemos numa reunião de família onde minha prima juntou nossos parentes com os parentes dela e ai ficou aquela parentada toda junta. Foi uma das raras vezes em que eu compareci a um evento desse tipo. Não estava esperando nada além de perguntas como "é pavê ou pacumê?" e ai meus olhos encontraram aquele ser lindo no meio de umas mil crianças brincando. Eram todas meninas, provavelmente já estavam todas apaixonadas.

A minha ideia era chegar dizendo "oi lindo, vamo fecha?", mas era um almoço de família. Então fui salvar o esquema para depois. E acabou que o esquema foi ficando sério, mais sério, mais sério e quando a gente viu estávamos namorando e fazendo todas aquelas coisas de casais.

Ele era incrível. O cara que a minha família mais amou de longe. Sempre simpático, prestativo "deixa eu que carrego sogrinha". Dizia que me amava na frente de qualquer um, o que eu tive que aplaudir. Por mais que seja uma coisa boba, eu dei azar de namorar uns caras que pareciam ter medo dos sentimentos. Mas ele não, ele sentia com todo o coração. Ele sentia muito. Muito mesmo. Muito ao ponto de ser insuportavelmente sentimental. Acho que deu pra entender.

Tudo foi lindo até os dramas começarem. "Você vai sair com elas e eu vou ficar sozinho na sexta?". Eu quis responder "sim, nós não nascemos colados", mas tive que fazer toda a psicologia pra ele entender que existia uma vida a parte do nosso relacionamento. Isso pra ele era muito complicado, então eu tive que contar até dez quando ele dava ataque de ciume, contar até cem quando ele era dramático e ficava semanas de mau humor por causa de bobeira. Às vezes eu nem lembrava qual tinha sido o meu "erro", mas ele lembrava e tava ali com o rancor bem visível.

Juro que tentei. Tentei compensar os defeitos com as qualidades, que até eram muitas. Pra falar a verdade ele tinha bem mais qualidade que defeitos, mas os poucos que ele tinha estavam de uma forma ou de outra destinada a me prender. "Passarinho não se prende", estou cansada de dizer.

Depois dele fazer um drama fortíssimo com meus pais e deixar todo mundo com pena do que eu tinha feito com ele, não sobrou mais nada. Não existia a menor possibilidade de tentar resgatar algo com um cara que era um sonho e ao mesmo tempo meu pesadelo. Não aconteceu o famoso "flash back" porque eu fiquei pela primeira vez sem reação. Eu não conseguia sentir raiva porque eu sei que todo mundo tem defeito, mas também não morria de amores por alguém que torrou tanto a minha paciência. Foi um caso de frustração a mais na mala e a certeza de que não quero ser mãe.

Por: Sabrina M. Lima