13 de set de 2017

Ele era libriano


Um dia como outro qualquer. Ou um dia que tinha tudo pra ser qualquer. Sai pra almoçar num self service baratinho perto do trabalho e foi quando eu o vi. A barba feita, aquela cara de bom moço, atrasando a fila toda. Terminei de me servir e ele ainda não tinha decidido qual arroz colocaria no prato. Antes de sentar naquela mesa que estava abarrotada de gente (não é possível que todos trabalhavam no mesmo lugar) ele me olhou e perguntou se podia sentar comigo. Sim, eu disse sim.

Tudo entre a gente aconteceu muito rápido. Mais apaixonado que ele? Ainda estou pra conhecer. Apaixonado pela vida sim, mas ainda mais pelas pessoas. Não posso negar que no início foi incrível. Mesmo eu sendo daquelas que acredita que as coisas tem que ir devagar sem se precipitar, acabei deixando tudo de lado. Aquele cara carinhoso, falando coisas bonitas, me enchendo de elogios e com um olhar que só um apaixonado tem. "Ah" pensei "não tem como me arrepender de algo assim". Tinha.

Eu já me deparei com caras que tinham amigos, mas esse tinha o dobro de todos os outros somados. Isso fazia com que sempre tivesse programas aos fins de semana e no aniversário dele eram necessárias horas pra ler todos as mensagens de toda aquela lista imensa de amigos. Muitas ex inclusive, porque eu também já me deparei com caras que tinham ex namoradas. Mas esse tinha o triplo de todos os outros somados.

Nem sempre fui muito bem resolvida com as questões da vida, não sabia se queria ter filhos ou se gostaria de casar na igreja. Ele conseguia ser mais indeciso que eu. Em alguns momentos isso era bom, nos fazia refletir sobre assuntos profundos e até filosóficos. A gente conversava tanto que parecia amor de outra vida. No fim das contas a resposta dele era sempre a mesma "o que você acha?". E em 90% dos casos as decisões eram minhas.

Romântico sem ser meloso, safado sem ser cafageste, organizado sem ser pilhado e errado sem ser orgulhoso demais pra admitir os erros. Que serenidade, que maravilha não precisar entrar em jogos de orgulho ou ter que assumir erros que não são meus. Com esse cara reinava um senso de justiça até pra dividir o finalzinho da coca. 

Outra saudade que eu sinto é da liberdade que tínhamos juntos. Não brigavamos por praticamente nada, ele era calmo, preferia conversar e tomar "decisões inteligentes" antes de partir pra qualquer tipo de discussão. Mas novamente as decisões eram tomadas por mim, ele só tentava me agradar.

De repente essa falta de coragem pra dizer "não" começou a pesar. Um parente aqui, um amigo lá, quando precisavam ele estava sempre disposto a ajudar. E tudo bem, precisamos ajudar, mas também precisamos enxergar abusos. Os dilemas de "vamos sair, mas você escolhe". Entre outras tantas e tantas decisões que eu precisava tomar porque ele era passivo demais pra dar um passo a frente. E foi ai que desandou.

Não fui a única a perceber que as bases daquela relação estavam mais estremecidas que um prédio em meio a um terremoto. Na verdade, nós nem tivemos tempo pra fortalecer as bases. Foi ai que um rostinho novo surgiu, uma morena bonita com cabelo enrolado, falava francês e eu não quis ficar na indecisão dele entre a loirinha ou a moreninha do tchan. Foi a minha última decisão e foi pra valer. Quer dizer pra valer até o dia que eu não estiver atoa e precisando de companhia. Afinal ele é bem fácil de convencer.