21 de jul de 2017

Ele era Leonino


Claro que tínhamos que nos conhecer assim: ele no meio da roda entre amigos, rindo, não um riso qualquer, aquele sorriso brilhante que parece que tem diamante nos dentes, sabe? Todo mundo envolta como se cultuassem alguma espécie de deus, maravilhados e rindo junto envoltos naquele magnetismo todo. E é claro que isso me deu uma preguiça imensa. O típico cara que é lindo e sabe que é lindo e fica por ai sendo lindo a troco de nada, porque ele é lindo mesmo vai fazer o que?

A verdade é essa: não nos bicamos de cara. Ele queria que eu o cultuasse e fizesse todo cortejo pra conquista-lo e blá-blá-bá. Não era pra mim, eu sabia que não era. Aquelas fotos no Facebook que ele estava sempre maravilhoso. Como isso era humanamente possível? Até fazendo careta o cara ficava gato. E quanto mais eu sabia da vida dele -sou uma boa stalker- mais me dava ódio. Ele não estava satisfeito em ser lindo, ele também tinha que ter um trabalho incrível com colegas que o idolatravam, conseguia sempre o que queria com a maior facilidade e ainda aquela família de comercial de margarina. Parei na foto com o labrador, foi demais pra mim.

Sabe lá Deus o porquê eu falei com ele no elevador. Até hoje acho que aquilo foi alguma energia louca que me forçou a isso. Você deve estar pensando "nossa como ela é exagerada", mas não sou, acredite. Ele entrou, olhou pra mim, riu, virou de costas e só. Mas o riso não foi do tipo "olá" e sim do tipo "percebeu que eu to aqui? Pois é, continue olhando". Maldito "oi". Maldita solicitação de amizade. Maldito ele que aceitou. Maldito encontro. Tarde demais, apenas tarde demais.

Admito que julguei muito sem conhecer ok? Ele era legal. Legal não, ele era incrível de verdade e merecia ser cultuado mesmo. Nunca namorei um cara tão bonito, então todas as minhas tias faziam questão de dizer "nossa que gato esse namorado, até que enfim um bonitão ein". Imagina se elas vissem como ele era por dentro? Ficariam como eu: apaixonadas.

Logo eu que nunca fui muito romântica, recebi flores e outras várias surpresas. Também tive que ser mais fofa do que o normal e fiz bem mais elogios do que de costume. Ele era tendencioso ao drama quando fazia algo e não era elogiado, mesmo quando era um nescau. Sim, vaidade era seu segundo nome. O terceiro podia ser generosidade, porque ele conseguia tempo e inteligência pra se importar e cuidar muito de si e do próximo. Aquelas fotos que eu falei, acho que elas não registravam nem metade do bem que ele fazia para os amigos e família.

A respeito das brigas... Famoso "dois bicudos não se beijam". Era necessário muita conversa pra ele ceder ou assumir que estava sendo mandão. Ele era muito mandão, tudo precisava estar perfeito sempre, mas é claro que ele não ia por as preciosas mãos na massa. Trabalhamos muito nisso e ele acabou aprendendo. Outra qualidade maravilhosa dele: a vontade de evoluir como pessoa pra ser alguém melhor. Claro que escorregando no egocentrismo vez ou outra, afinal apesar de acharem que ele era um deus, o cara era bem humano.

Apesar de tudo tínhamos muita sintonia. Nas conversas, nos programas que fazíamos juntos, algumas ideias não batiam muito, mas eu sempre amei o novo. Não sou muito conquistadora, mas acabei não precisando me esforçar muito. Nunca tivemos aquela relação gato e rato, ele me conquistou só existindo e eu o conquistei sendo eu mesma também, muito contrário do que eu pensei que seria. O único campo que ele tinha total necessidade de conquistar e mandar era no sexo. Eu reclamava? Claro que não, em time que está ganhando não se mexe. E eu tenho que admitir: foi o melhor estratégia de todas as estratégias que eu já vivenciei.

Parece até brincadeira, mas terminamos. Pois é, num certo momento eu fui teimosa demais, ele orgulhoso demais. A gente acabou se afastando e ficou tudo meio esquisito. Foi meu relacionamento mais longo e acabou de um jeito sem fim. É por isso que eu ainda não namorei mais ninguém, parte de mim ainda está ligada a ele. E eu sei que se eu ligar a gente até pode voltar, mas antes eu tenho que admitir que senti muita saudade, que somos um par perfeito e talvez citar uns trechos de pagode do tipo "eu nunca amei assim" pra encher todo aquele ego imenso e ele dizer que sim.

Por: Sabrina M. Lima