9 de mar de 2017

O dia da caçadora



Tudo bem que eu sempre tive uma queda por essas relações de gato e rato. Em geral eu era o rato, fugindo, correndo, me escondendo de todos os caras que tentavam "me pegar". Era divertido. Cada um com seus gostos individuais, correto? Tem gente que não curte joguinhos de sedução. Mas eu, ah eu sempre amei! Porém, em quase todas as vezes era fácil demais. Todos os meus "oponentes" nesses jogos eram fracos e uma hora ou outra perdiam a graça. A conquista acabava quando eu era pega. E o que eu queria era uma conquista diária. Não me diga que é pedir muito, porque eu te garanto que não é.

Foi quando eu conheci aquele cara. Eu acho que toda mulher tem "o cara" na vida dela, mesmo as mulheres que gostam de outras mulheres, elas tem "a mulher" que elas vão dizer "que mulher". Porque ele... Que cara! (Aqui no Rio nós chamamos qualquer um de "cara", do cachorro até a vovózinha.) Pois bem, seja você gay ou não, terá "aquela pessoa" na sua vida e ela vai tirar todas as suas certezas, você vai gostar disso. Ela vai te deixar duvidando de tudo aquilo que você acreditava antes de conhecê-la. Porque ela é diferente de você e de tudo que você imaginou, mas é exatamente aquilo do que você precisava. Pois é, "a vida tem dessas coisas" não é o que dizem?

Aconteceu bem desse jeito. Ele era tão bom oponente que ele mal me olhou. Eu era a gata pela primeira vez e confie em mim, ser a caçadora é bem mais interessante! Nunca fui o centro das atenções em nenhum dos ambientes que frequentei, mas ele nem sequer tentou manter uma conversa no mínimo esperada. Perguntar nome e coisas assim clichês. Foi um encontro desses de amigos com um carinha diferente e que eu dei a exclusividade de todos os meus olhares. Todos ignorados com sucesso. Daí veio a maldita coceirinha atrás da orelha. Será que ele tem namorada? Ou será que ele só curte ficar mais na dele? Será que eu tenho alguma chance? Mas e se...

Pronto. Madrugada a fio eu stalkeei as redes do boy e descobri que tinha uma ex bonitona e agora estava soltinho que nem arroz. Então: por que não? Era a única coisa que passava pela minha cabeça. Não iria esperar nem um segundo. "Adicionar aos amigos". Feito. Só de manhã foi quando ele aceitou, provavelmente estava dormindo aquela hora. Conversamos um pouco, mas nada dele soltar um "poxa vamos naquele barzinho novo" mesmo que fosse um bar velho. Também não me falou nada muito pessoal. Ou o cara era agente da C.I.A ou eu não fazia nem 1% do tipo dele. Mas ele era meu número! Eu tinha certeza! Cabelo comprido, barba por fazer nem muito grande nem muito falhada esquisita, não era malhadão nem muito magrinho, tinha aquela cara de "se você me pedir eu bato sim".


Eu sabia que nos encontraríamos no churrasco da Angélica. Então me segurei e esperei até o domingo pra conseguir atacar. Pensei na roupa com cuidado e fiz todas aquelas coisas bestas que muito provavelmente só eu perceberia. Mas quando cheguei lá... Ele não estava. Nem esteve. Porque ele simplesmente não pôde ir e claro que foi decepcionante. O churrasco foi ótimo apesar disso. Amo carne.

Durante uma semana tentei discretamente puxar assunto por mensagem, mas o cara era um mistério sem fim. Até que um dia fiquei de saco cheio e puxei logo o gatilho sem saber pra qual de nós dois eu estava apontando.

"Você fala bem pouco. Não gosta de conversar ou o problema é comigo?" Mandei sem pensar nenhuma vez.

"Não sou bom com as palavras." Respondeu por mensagem.

Isso significava que ele era bom fazendo outras coisas com a boca? Quem sabe...

"Mas eu gosto de ouvir as pessoas." Mandou um minuto depois da outra resposta.

"Pra ouvir tem que ser pessoalmente." Novamente: nenhuma vez.

"Vamos ver um dia."

"Amanhã." Não. Nenhuma.

"Só se for a noite porque tenho trabalho." Claro que tem! É quinta-feira!

"Então é só falar a hora que a gente vai num barzinho novo que eu conheço, é ótimo." O barzinho era velho, assim como essas minhas cantadas. Mais eu sei que só falta um pouco pra eu ter explodir então vai tudo sem filtro mesmo.

"Fechado."

Pensa que depois disso teve papo? Não. Ele sumiu.

Era incrível que mesmo falando pouco ele era interessante. Dava sempre vontade de saber mais sobre ele. Não sei como isso é possível, mas eu queria descobrir.

No dia seguinte me dei conta de que não tinha pego o número dele e o bendito não ficou online uma vez sequer naquele dia. Mandei o endereço do bar rezando pra que ele visse em algum momento. E ele viu 30 minutos antes de chegar.

Falei.
Falei.
Falei.

Às vezes eu desconfiava de que ele não estava prestando atenção, mas ele ria nas partes que eu tentava fazer piadas e com suas poucas palavras ele se mostrava interessado aqui ou ali.

"Chega. Por favor, eu amo falar, mas minhas cerveja está esquentando. Sua vez. Eu não sei absolutamente nada sobre você!" Ele pareceu empolgado em ouvir isso.

"O que você quer saber?"

Se você chupa bem, se você quer ir embora agora pro meu quarto, se você é tão bonito pelado quanto vestido, nossa são muitas coisas.. Mas vamos começar com algo simples.

-Aquele gato das fotos é seu?

-Sim! É o cebola. O que mais você quer saber?

Perguntei mais uma bobagem que nem me lembro e ele parecia sempre estar me desafiando a perguntar o que eu realmente queria saber. Pois bem!

-Você namora?

Ele riu.

-Nossa achei que você não ia perguntar isso. -Riu e balançou a cabeça. -Eu nunca sai com uma mulher como você.- Riu de novo e não respondeu minha maldita pergunta!

-Como assim?

-Você me adicionou no facebook, você me chamou pra sair, você ficou falando sem parar sem ficar sem graça por eu falar pouco. Porque eu realmente falo pouco. Você me chamou pra um bar na quinta-feira! Amanhã eu acordo às 06h. E eu vim. Isso nunca aconteceu."

-Então eu já posso eliminar dois questionamentos.

-Quais?

-O primeiro é que você não tem namorada. E a segunda coisa que estava me perguntando era se você não estaria afim de mim também.

-Descobriu a segunda?

AI SEU DANADO!

-Claro!- Sorri mais confiante que qualquer pessoa na face dessa Terra.

-Então?

-Totalmente! Absolutamente.

Ele gargalhou.

-Hum, talvez. -Ele disse e piscou.

Era isso! Ele não colocou todas as cartas na mesa. Ele não colocou nenhuma desde o começo e agora que eu vi que eu tinha permissão de encostar na manga que guardava as cartas eu não ia desistir fácil.

-São 00h e se você acorda às seis eu tenho bastante tempo pra te convencer.

-Você está certa, eu realmente não tenho namorada.

Sorri.

O problema dos outros caras não eram deles. O problema era com a posição que eu ocupava. Era o tipo de mulher que conquista e não que era conquistada, mas pelos bons costumes esperava os homens virem até a mim. Uma porção de homens que não faziam muito o meu tipo e logo depois da transa perdia totalmente a graça. E não eu não queria um relacionamento sério, eu só queria que a graça não acabasse minutos depois do sexo. Não é pedir muito, já disse.

Com ele foi bem diferente. Aconteceram algumas vezes e todas elas após algum flerte, nenhum tão longo quanto o primeiro. Mas valiam a pena. Hoje ele prometeu me ver. Mas você acha que ele ligou confirmando? Não. E isso era algo nosso. Eu também não confirmava e quando ele me via era nítido que a ansiedade saia de seu rosto, mas a calma se instalava por pouco tempo, só até o momento de estarmos perto o suficiente. Não era pedir muito, na verdade era pedir o suficiente.

Ah e se você queria saber as respostas daquelas perguntas eu te respondo agora: sim, sim, sim, sim, AÍ SIM!