12 de fev de 2017

Irmão do ex



-Alice, acho que eu já vou. Você vai também?

-Se algum dos meninos for, eu vou.

-Tá, vou ver.

Caminhei até "os meninos" que eram três: meu ex, o irmão do meu ex e o Flávio. Nós todos éramos amigos. Sim, apesar de termos terminado, meu ex e eu conseguimos ser amigos. É bom chamá-lo pelo nome: Rodrigo. E o irmão do Rodrigo era o Alex.

-Gente, acho que vou embora. Alguém mais tá indo? Até porque seria bom uma carona.

Quando falei só Alex prestava atenção de fato. Flávio estava com o pescoço esticado para o meu lado, mas os olhos cravados na menina de decote. Rodrigo já estava se amassando loucamente com uma menina de cabelo vermelho.

-Eu posso levar vocês, sou o único que não bebeu. -Disse Alex. Ou "lêlê" como eu sempre chamei.

Nós nos conhecíamos há muito tempo. Ele era da minha turma na escola e sempre fomos amigos, até que na adolescência eu descobri uma super paixão pelo seu irmão 3 anos mais velho, alguns anos depois ficamos, namoramos, terminamos e agora frequentamos baladas com Alice.

-Alice, o Alex vai levar a gente. Bora?

-Bora!

Saímos da boate, caminhamos até o carro falando sobre como os homens chegam de maneira bizarra nas mulheres.

-Uma mulher deu um tapa na cara de um homem que chegou nela perto do banheiro! Nunca tinha visto isso acontecer, mas sempre quis que acontecesse com alguns babacas.

Eu ri.

-Ai meu Deus Alice, que agressiva! -Ri de novo. -Eu já senti vontade de dar uns tapas também.

-Ah, fala sério! Tem uns que são uns amores, dá vontade de levar pra casa e não deixar ir embora nunca. Tipo aquele que eu fiquei mês passado, mas tem uns que da vontade de desistir da vida.

Eu ri. Sempre dramática.

-Será que eu faço alguma mulher querer desistir da vida? -Perguntou Alex.

Quase respondi "é óbvio que você é de levar pra casa", mas seria tão estranho falar isso. Não seria? Deixei pra Alice responder.

-Ah, lêlê não sei! -Ela deu de ombros. -Não fiquei com você, nem pretendo porque isso iria acabar com várias amizades, mas eu acho que você deve ser do tipo que leva pra casa mesmo e amarra no pé da cama pra não fugir porque é muito disputado. -Ela riu e olhou pra mim.

Não sou mais uma adolescente, assumo que já pensei nisso que você está pensando. O Alex é um gato! Enquanto Rodrigo fica se destruindo com fast food quase todo dia, o irmão bebe os famosos 2 litros d'água diários, corre todo dia e não é doente com dietas ou corpo, faz isso porque "deixa ele mais disposto". Então sim, eu já pensei nisso. Eu já pensei várias vezes nisso. Várias.

Entramos no carro.

-Nossa, estacionou longe hein lêlê!

-Pegou a mania da Vivian de me chamar de lêlê. Ninguém merece.

-Para! Você nunca reclamou de eu te chamar de lêlê, lêlê. -Eu ri.

-Parece que eu tenho dez anos ainda quando você me chama assim, vivi. -Ele fez uma cara de tédio ao falar meu apelido.

-Tudo bem, eu paro.

-Eu não paro! Lêlê é ótimo! Falar em "lê" e aquele Leonardo hein Alex? Você disse que ia me apresentar hoje e o cara nem foi!

-Acho que ele tava passando mal de sei lá o que. Mas vai ter churrasco na casa dele semana que vem, quer ir?

-Han? Eu nem conheci o cara e já vou na casa dele?

-Qual problema? Eu vou, Rodrigo vai, Vivi vai. -Ele piscou pra mim.

-Eca. Rodrigo... Não sei como você conseguiu ficar um ano com o Rodrigo! Nossa, ele é tão... Tão bosta.

Eu queria dizer "verdade, também não sei o que me deu". Mas Alex sempre defendia, então continuei muda.

-Rodrigo é idiota Alice, acho que a Vivian queria consertar ele, mas não ia dar certo nunca.

Han?

-Como que é Alex? Você sempre defende ele e agora vem com essa? O que houve? Brigaram? -Fiquei indignada mesmo.

-Não briguei não. Só assumi que meu irmão não valoriza algumas pessoas. É um defeito dele, como todo mundo tem. Não adianta eu fingir.

-Chegamos. Valeu pela carona, lêlê.

Desci com ela pra dar um abraço e mudar para o banco da frente.

Sentei no banco do carona e Alice apareceu do nada na janela.

-Quem sabe você dê valor às pessoas que o babacão do seu irmão não deu não é não lêlê? -Riu. -Tchau gente. -Virou e saiu correndo pra entrada do prédio.

-Nossa, não acredito que ela disse isso. -Sério, eu não acreditava. Ela tinha me jogado pra cima do cara. Não que eu não quisesse ficar em cima do cara, mas eu meio que não podia.

-Ah, relaxa.

Relaxa? Meu Deus! Achei que ele diria algo tipo "Não, nada a ver! Eu e você não podemos ficar nunca." Como ele já disse tantas vezes.

-Relaxar?

-É. -Ele me olhou. -Foi uma brincadeira só.

-Uhum. -Disse encarando ele, que prestava atenção na estrada.

Ficamos em silêncio um tempo enquanto as paisagens iam mudando. Faltava pouco.

-Rodrigo disse uma coisa uma vez.

-Que coisa?

-Nada, deixa.

-Até parece! Começou então termina.

Ele pareceu ponderar muito, olhou para os lados. Fiquei bem impaciente. Rodrigo disse algo sobre mim? O que?

Estacionou o carro. A próxima rua era da casa dele.

Ele virou pra mim bem sério.

Naquele momento ele me deu um nervosinho.

-Ele falou que você nunca ficaria comigo. Na verdade ele falou isso mais de uma vez. Antes de vocês namorarem, antes dele saber que você gostava dele anos atrás e depois de vocês terminarem também.

-Uau. Não esperava por essa.

-Segundo ele eu deveria parar de tentar.

-Han? Mas você nunca tentou!

-Na cabeça do meu irmão eu tentei. Ele acha que eu tentei ficar com você várias vezes e que você me rejeitou em todas elas.

-Nossa! Mas como o Rodrigo é idiota! Como ele consegue?

Alex sorriu pra mim.

-Vou levar você pra casa. -Disse e olhou pra frente.

Espera ai Alex, eu já tirei até o cinto.

-Lêlê?

Ele me olhou com a mesma cara de tédio e isso me fez rir. Isso e o pequeno nervosismo.

-Se você já tivesse tentado, já teria conseguido. Mas como você não tentou, eu vou tentar.

Eu vi a confusão nos olhos dele e mesmo assim o beijei.



-ALEX?

-Ai caramba! -Sentei na cama muito rápido.

-Calma. -Alex disse tocando minhas costas e continuou deitado.

-QUE FOI RODRIGO?

-Cadê a chave do carro? -Deu pra perceber que a voz estava bem perto. Meu ex estava bem ali atrás da porta. E eu estava do lado de cá completamente nua na cama do irmão dele! Não sei dizer qual era a sensação, as sensações na verdade.

-TÁ NA SALA! PERTO DA TELEVISÃO!

-JÁ É! -A voz respondeu longe.

-Viu? Tá tudo bem.

-Sim, eu só me assustei. Achei que ele sabia que eu tava aqui e ia fazer um barraco.

-Ele não sabe, nem precisa saber. Pelo menos eu não vou contar. Mas acho que se ele soubesse ele faria um barraco sim. -E riu.

-Vem cá é isso mesmo? Você tá se achando porque dormiu comigo?

-Ei! Eu não dormi com você!

-QUE CACHORRO!

Acertei um tapa.

-Ai. Era só brincadeira, calma. -E riu fingindo uma dor muito maior.

-Tenho que ir embora antes que ele volte.

-Ele não deve voltar cedo.

Eu também não queria voltar cedo. Por mim eu ficaria em cima do cara o dia todo. Acho que chega desse trocadilho né? Pois é. Mas eu tinha um dia longo com a minha mãe, então não poderia ficar.

-Eu tenho realmente que ir.

-Tá bom linda. -Ele levantou. AI MEU DEUS ELE LEVANTOU NU. NU! Sei que comparações são horríveis, mas noooooooooooooossa deu de 7x1 no Rodrigo! Acho que a diferença, em centimentros, devia ser mais ou menos isso. Nãoo, tamanho não é documento, mas é que você não viu a diferença, porque se tivesse visto concordaria comigo.

Ele percebeu e riu.

Comecei a colocar minha roupa.

-Então, seus pais não estão também né?

-Não, não.

-Nossa ia ser horrível me virem saindo do seu quarto. Eles já me viram saindo do quarto do seu irmão.

-Olha que bom, só mudou de porta.

-Vai a merda Alex!

-Eles gostam de você.

Outro tapa.

-Ai cara! Calma. -E riu.

Engraçado como ele estava animado. Será que era tudo por minha causa? Ou sexo deixava ele assim?

Antes de abrir a porta ele virou pra mim, pensou um pouco. Nunca tinha percebido que ele pensava bastante antes de falar.

-Olha só, eu sei que é um pouco diferente essa situação aqui, mas eu espero que você não fuja de mim depois de ontem.

Querido, se eu pudesse eu morava nesse quarto. Se eu pudesse eu voltaria no tempo e nunca teria entrado no quarto ao lado.

-Claro que eu não vou fugir de você lêlê.

-É que não vai ser mais a mesma coisa. Você sabe.

-Quem disse que eu quero que seja a mesma coisa?

Ele riu.

-Ótimo. Eu nem sei porque eu te apresentei meu irmão.

-Relaxa.

-RÁ-RÁ-RÁ! Usando minhas falas.

-Vamos viver o momento. Ta bom? -Falei sinceramente. Eu não sabia onde aquilo iria dar, mas contando que desse. Nossa! Sério, chega de trocadilho.

-Ta bom não, tá ótimo! -Ele riu, me deu um beijo e abriu a porta.

-Tchau lêlê!