11 de nov de 2016

Ele era Virginiano


Ah ele era de virgem...

No início todas as minhas amigas achavam que ele era "meio gay" e tentavam me fazer desistir. Mas eu enxergava algo legal nele, precisava tentar. Nós não devemos julgar as pessoas antes de conhecer. Foi por isso que o conheci e não sei como não sai correndo o mais rápido possível. Acho que estava louca ou muito curiosa. Sinceramente não sei explicar.

Aquele cara era a pessoa mais metódica que eu já conheci em toda a minha vida. Eu não podia bagunçar a cama, mas como não bagunçar a cama enquanto dorme? Ele também tinha rituais certos para dormir do tipo: primeiro escovo os dentes, segundo tomo banho, terceiro coloco pijama. Peraê! Nenhum outro cara que eu fiquei usava pijama! Eles dormiam de qualquer jeito mesmo. De cueca, sem, com qualquer camisa ou short e variações desse tipo. E ele tinha pijamas, mais de um sim senhor!

O mais difícil nesse tempo que estivemos juntos era não me atrasar. Porque ele era absurdamente pontual e eu não sei se quando uma pessoa diz três horas ela que dizer realmente três ou três e meia, acaba que eu chego as quatro e fica tudo bem. Mas quando ele dizia seis significava cinco e cinquenta. E se atrasasse é claro que iria escutar uma reclamação de um velho bem ranzinza. Ele odiava que eu o chamasse de ranzinza. Dizia "um pouco de pontualidade não faz mal" e também "olha o seu quarto, não dá pra achar a cama".

No início eu pensava "ai que fofo ele é tão certinho" e ficava admirada. Mas com o tempo isso foi me dando nos nervos e fiquei ainda mais bagunceira só pra provocar. Claro que ele odiou e até brigamos, mas não terminamos ali. Ele gostava dessa coisa de rotina, de ter alguém no dia-a-dia, ainda mais por não ser do tipo que dá chances para qualquer pessoa. "Você era diferente, engraçada." Segundo ele foi por isso que aceitou meu convite pra ficar no barzinho que todo mundo bebia, pelo menos, uma na sexta, mas que ele sempre preferia ir pra casa. E apesar dessa briguinha ficou tudo bem. A reconciliação foi ótima!

Mesmo sendo chato como um velho ele tinha senso de humor, sempre ria das minhas piadas sem limites. E eu adorava fazê-lo rir. Foi assim que percebi o quanto ele apreciava pessoas engraçadas (ou metidas a engraçadas como eu) porque ele não era de sorrir pra qualquer um. Acontecia ali no nosso momento. Eu e ele sozinhos e aquele monte de conversa em que discordávamos de quase tudo. Em um monte de recordações que eram tão opostas que doía. Isolamento, poucos amigos, ficar sozinho, procurar por alguém certo... Eu estava sempre com a galera, conhecia todo mundo, não namorava, mas também não ficava sozinha. "Alguém certo" pra mim sempre foi mito.

Ele pensava em casar e ter filhos. Era mais do que "curtir o momento" ou "vamos ver no que dá". Muito romântico pra uma pessoa como eu. E às vezes ciumento. Arrisco dizer que ele era desse tipo de cara pra envelhecer junto. Porque ele seria fiel, cuidaria da pessoa amada todos os dias sem achar isso uma obrigação ou martírio. Nós estávamos em momentos diferentes, preciso admitir. Talvez combinássemos em outra fase ou só em outra vida.

Com o tempo as nossas diferenças foram criando uma barreira. Eu queria sair nos finais de semana, queria viajar nos feriados, não queria estar em almoços de família ou assistindo "um filminho". A ideia de namoro estava me assustando assim como a de precisar dobrar a roupa antes de dormir. Acabei sendo uma enorme decepção para aquele rapaz. Fui aquela chuva de verão que veio só pra molhar e bagunçar tudo que esteve tão estável por tanto tempo e no outro dia eu não estava lá. Deixei apenas vestígios.