2 de out de 2016

A primeira vez sem planos


Meu cérebro parou por um tempo que pareceu longo. Até eu decidir o que deveria fazer. Sempre pensando no que eu os outros esperavam que eu fizesse e esquecendo o que eu queria fazer.

-Edu? -Eu não sabia o que dizer quando ele disse "eu".

-Eu. -Ele desviou atenção do meu pescoço e me olhou.

-É... -Respirei fundo. O quê eu precisava fazer agora? Como eu diria "não" se eu nem queria dizer não? Minhas expressão me entregou.

-Que foi Betina? -Ele se afastou mais e isso me deixou absurdamente constrangida.

-Eu não sei. -Encarei o a outra poltrona da sala.

A noite acabou sem uma explicação. Eu não fazia ideia do que estava sentindo agora. Talvez raiva de mim. Havia acabado de dispensar um cara super legal, confiável e que eu conheço há tempos. Tudo por uma medo estúpido do que os outros iam pensar.

-QUE INFERNO! -Gritei só para as paredes ouvirem.


Tentei dormir e óbvio que não consegui. Eu só pensava nas últimas horas desse dia. Até que meu celular vibrou em cima da mesinha de cabeceira.

Tá acordada?

Sim :) -respondi colocando uma carinha feliz pra parecer mais simpática.

Problemas pra dormir??? -Ele queria mesmo saber, senão pra que tantas interrogações?

Sim!!! -Respondi pra ele entender que estava completamente certo.

Eu também.
Já tentei, mas não consigo parar de pensar em você.

Meu Deus! Agora que eu não ia dormir mesmo! Não sabia o que dizer...

Meu cérebro já caiu de tanto que pensei o que foi que eu fiz de errado pra você agir daquele jeito.

Ai não. Mas ele não fez nada.

Se você não disser o que foi, não tenho como saber.

Você não fez nada Edu. Sério. É coisa minha. -Não podia deixar ele pensando que a culpa era dele.

Mas eu posso ajudar no que for. Eu achei que você estava gostando.

É claro que eu estava gostando. Ninguém nunca me fez sentir aquelas coisas. Já fiquei com vários caras mais velhos e nenhum deles me fez sentir algo. Eram beijos onde eu poderia simplesmente lembrar da fórmula de Bhaskara sem nenhum problema. Só beijos. Apenas beijos. Mas o que tinha acontecido ali bem no sofá da minha casa foi muito além de beijos. Mas o medo de perder a virgindade com alguém que eu não namorava me impediu de continuar. Porque eu sempre ouvi dizer que esse era o jeito mais seguro, o jeito que "dava certo". Eu não queria começar errando.

Mas eu tava.  -Foi a única coisa que consegui dizer.

Então qual o problema? Você ficou com medo dos seus pais voltarem? Ou a Raquel?

Não. Eu sabia que meus pais só voltariam amanhã na hora do almoço e minha irmã tinha saído com o namorado dela.

Não foi nada disso. Foi só coisa minha.

Assim fica difícil Betina. Você só me deixou ainda mais confuso.

Não respondi. Não sabia o que responder. Será que ele não sabia que eu era virgem? Será que ele não sabia que esse não era o "jeito certo" de perder a virgindade?

:(

Ele mandou uma carinha triste enquanto eu me matava pra tentar configurar uma resposta.

Você sabe que eu sou um pouco mais nova que você, né?

Acho que esse era um bom começo. Ele e Raquel estudaram juntos e por isso eu o conhecia.

Sei. Mas isso tem a ver com o assunto?

Pensei mais. Não sabia porque eu estava com tanto medo de falar de cara. Acho que eu não queria que ele me visse como uma criança inexperiente e blablablá.

AAAAH! -Ele continuou digitando. -Você é virgem! Nossa, me desculpa.

Desculpa? Por acaso isso era um fardo?

Eu não pensei nisso. Como eu sou burro... Desculpa mesmo. Então eu realmente fiz algo que você não gostou. Você poderia ter me falado Betina! Eu nunca ia tentar nada se soubesse disso.

POR ISSO QUE EU NÃO FALEI! Pronto, foi tudo por água abaixo.

Eu imaginei. -Foi só o que consegui digitar.

Como assim? -Agora ele estava se fazendo de idiota?

Imaginei que se você soubesse que eu era virgem não ia querer ficar comigo. -Que se dane, não tinha como a situação piorar mesmo.

NÃO! -E continuou a digitar:
Eu não quis dizer isso!
Eu quis dizer que teria ido mais devagar com você. Isso não é um problema pra mim. É normal, todo mundo tem a primeira vez. Não teria nenhum problema em ser a sua.

Um tarado em virgens? Será que eu parecia tão ingênua assim?
Desliguei o telefone. Não ia ler mais mensagens dele.



Quando acordei no dia seguinte era tarde. Meus pais já estavam em casa.

-Oi filha, sentiu saudade?

-Sim mãe! Olha que não foram nem 24 horas. -Disse e ela riu.

Estava tomando café quando ouvi minha mãe falar com alguém.

-Oi Eduardo! Tudo bom? -Pausa pra resposta dele que não era tão audível quanto a da minha mãe. -A Betina tá tomando café. Agora! Acredita? Duas horas da tarde! Vem, senta aqui no sofá que eu vou chamar ela. Sua mãe tá bem meu filho?

Engoli o pão o mais rápido possível. O que ele tava fazendo lá em casa? Ainda bem que eu resolvi quebrar o costume do café na cozinha e tomei no quarto. Pelo menos dava tempo de tirar o pijama e colocar uma roupa decente.

-Betina? -Ela bateu na porta. -Aquele seu amiguinho Eduardo tá aqui na sala. Desce logo pra falar com ele porque eu vou mexer nas minhas plantinhas do lado de fora e não posso dar muito atenção pra ele. -Não entendia qual a necessidade de colocar tantas palavras no diminutivo.

-Já vou! -Gritei e meus olhos pararam no celular desligado.

Liguei e devorei todas as mensagens que ele mandou enquanto eu dormia.

Ei? 

Depois de uns 15 minutos outras:

Você não vai mais me responder?
Ficou brava? 
Caramba! Eu não estou sabendo me expressar mesmo.
Calma.

Olha só, eu gosto de você não quero te deixar irritada. Você é uma menina tão legal. Eu não queria parecer um tarado ou algo assim. Quero que você saiba que nem sua idade nem a sua falta de experiência são um problema pra mim. Mas parece que é um problema pra você. Sei que garotas pensam diferente dos caras, então provavelmente você deve ter um plano pra sua primeira vez. Só quero que você saiba que eu respeito isso. Gostaria de ter ficado sabendo antes da gente ter ficado ontem, eu juro que seria menos afobado. 
Será que alguém da minha idade fala "afobado" ou só eu? :)

Em segundos toda a raiva que eu senti foi embora. Agora eu não sabia com que cara olhar pra aquele ser humano sentado na minha sala.

-Oi.

-Ei! -Ele disse e levantou.

-Acho que aqui é um lugar péssimo pra conversar agora que  meus pais chegaram.

-Então vamos fazer um passeio e conversamos. -Um passeio? Não tinha como negar.

-Mãe eu já volto!

-Tá bom. -Ela gritou mais alto que o necessário. -Vê se volta pra jantar na hora certa!

Concordei com a cabeça.

Caminhamos um tempo em silêncio. Estávamos quase na rua dele já.

-Por acaso você leu minhas mensagens?

-Por acaso. -Fiz que sim com a cabeça. E ele apontou um banco.

-Você ficou com raiva?

-Antes de dormir? Sim. Depois que li as mensagens não.

-Ah! -Ele sorriu e concordou. Não disse mais nada.

-Pensei que você fosse um tarado em virgens.

-Eu não sou! -Ele arregalou os olhos. -Sério, eu não fazia ideia. Você fala de um jeito que eu até esqueço que você é 4 anos mais nova. Não parece!

Todo mundo falava isso. Todo mundo achava que minha irmã e eu éramos gêmeas pela nossa cara idêntica e porque eu só andava com gente da idade dela.

-Tudo bem. Já entendi que não é. Acho que devo desculpas por ter sido infantil. -Falei olhando pra frente, porque não conseguia olhar pra ele.

-Claro que não garota. Deixa de bobeira! Foi um mal entendido. Podemos tratar assim?

-Sim! -Que alívio. Ele não parecia nenhum pouco abalado com o que aconteceu, só quando o chamei de tarado. Pelo visto eu estava criando caso atoa.

-Então tá ótimo. Acho que te devo um encontro mais legal pra compensar ontem, né? Você topa?

-Sim. Acho justo. -Concordei sem conter meu sorriso gigante.

-Você é contra sobremesa antes do prato principal? Ouvi sua mãe dizer pra você voltar antes do jantar.

-Não! Eu sou do time "doce primeiro"!

-Então vamos, vou te pagar um sorvete e a gente combina onde vamos e quando.

Conversamos um milhão de coisas até o caminho da sorveteria. Estávamos em frente a casa dele falando mais aleatoriedades sem compromisso. Foi quando eu tive um surto de coragem.

-Ah! -Eu olhei pra ele. -Eu não tenho um plano.

-Han? -Ele ergueu uma sobrancelha. Odiava quem fazia isso, porque eu não sabia fazer.

-Um plano pra minha primeira vez. -Forcei um sorriso.

-Ah sim! -Ele riu. -Minha primeira namorada tinha. Achei que todas as mulheres tinham.

-E você fez do jeito dela?

-Não. Porque ela já tinha feito com alguém antes de mim. -Ele riu. -A minha primeira vez teria sido melhor se eu tivesse um plano.

Eu ri da cara engraçada que ele fez com a memória.

-Eu não concordo com essa ideia de que precisa ser com um namorado ou que é necessário ouvir um "eu te amo" antes. Só queria que fosse com alguém legal. -Não conseguia olhar pra ele ainda. Porque eu não queria ler nada na expressão dele.

-Uau! -Ele falou balançando a cabeça. -Você sempre me surpreende. Tá vendo? Parece que eu sou o mais novo nessa conversa.

Olhei pra ele e senti o calor no meu rosto.

-Mas então. -ele continuou. -Eu sou legal? -Ele tinha parado e endireitado o corpo como que pra eu avaliar.

Concordei com a cabeça.

-Então eu vou fazer um plano e você me diz se concorda. É você quem decide aqui.

Assenti de novo.

-Ainda tá muito cedo pra ter alguém na minha casa. A gente pode entrar, ver um filme e ver se depois de ontem você ainda me acha legal mesmo. Depois eu deixo você na sua casa e nem vai ter passado do horário da janta. Que tal?

-Concordo. Só não me importo com o horário da janta.

Ele sorriu e me beijou. Ainda bem que não era uma rua movimentada. Ainda bem que estava entardecendo e ninguém ia perceber duas pessoas tão próximas no meio da rua.

Não sei que filme era aquele. Só sei que não poderia ter sido melhor. Nenhuma plano seria melhor que aquele. Definitivamente não há regras. Mesmo não sendo meu namorado, mesmo não me amando, Eduardo foi tão carinhoso comigo que eu esqueci o nervosismo a vergonha e tudo.

O momento certo existe, mas ele não tem nada a ver com a idade, se o relacionamento é sério ou não. Aquele foi meu momento certo porque eu não tinha dúvida do que queria. O problema era achar que o momento certo dos outros eram uma regra que eu deveria seguir. Não era. Por isso eu não me arrependi.