11 de set de 2016

Relacionamento aberto


Eu não entendi direito o motivo daquela mensagem. Por isso resolvi ignorar e continuei a me arrumar para a noite de hoje. Afinal eu e minhas amigas demoramos bastante tempo programando.

-Ai ainda bem que você chegou! Meu celular acabou de descarregar. -Eu disse.

-Jura? O meu também, tava ficando doida aqui pensando em como ia te achar. -Respondeu Gabriela. Mas pra ela isso era novidade. Pra mim não. Sempre fui a "avoada" do grupo. Meu celular vivia descarregado, eu vivia perdendo as coisas e esquecendo. Não chegava a ser um grande defeito. Não me metia em "problemas". Só ás vezes.

-Ah! -Ela apontou- olha ali elas chegando. Vamos lá!

E nós fomos. A noite foi incrível. Tinha um cara incrível lá. O nome dele era Paulo. Teve aquela conversinha toda, depois ficamos. Ele foi super legal, me ofereceu carona e tudo mais. Só que eu não queria ir além com ele. Então paramos por ali.

Só quando acordei percebi quanto eu tinha dançado na noite anterior. Minhas pernas ficaram muito doloridas. Funk não é pra sedentários definitivamente. Mas eu estava feliz.

-Sofia, seu telefone não para de tocar. -Minha mãe apontou para o celular que estava conectado à tomada perto do sofá da sala.

-Ah, mãe. Que fofa, você colocou pra carregar.

Ela apenas riu. Minha mãe achava engraçado todas as minhas pequenas demonstrações de afeto. Ela dizia sempre "você é um docinho, nem parece filha minha, só pode ser por causa do seu pai". Sim, meu pai era um fofo. A gente tinha apelidos fofos. Era tudo fofo. E eu amava isso. Minhas amigas amavam estar comigo quando elas precisavam de carinho porque eu tinha sempre muito carinho pra dar. Afinal eu recebia muito do meu pai.

Mensagem nova do Evandro da noite anterior. Na verdade "Eva" era como eu salvava o número dele.

Perguntava se eu iria mesmo pra "baladinha" e que ele achava que eu convidaria ele "mesmo a gente não tendo nada".

Mas se a gente não tem nada por que diabos ele achou isso?

Contei meu recente caso a Gabriela.

-Amiga, você é muito carinhosa, meiga e tudo mais. Quando você e o Evandro estão juntos parece que vocês namoram.

-Mas a gente não namora! -Disse incrédula daquilo que ela havia dito.

-Eu sei. Talvez ele goste de você e não quer falar nada. Sabe como é homem. -Ela concluiu.

Aí é que está o problema. Eu não achava que ele gostava de mim. Ele parecia bem seguro do que sentia. Sempre ficava com outras meninas e eu nunca liguei. Eu também ficava com outros caras e curtia essa liberdade. Dava tão certo! Claro que eu gostava dele, não ficaria com alguém que eu odeio. Mas é uma relação moderna, pautada na liberdade. Não é que eu não me apaixonasse por ninguém. Eu apenas não controlava por quem eu não me apaixonava. E definitivamente não estava nem perto de me apaixonar por Evandro.

-Eva -digitei- foi mal cara. Eu não sabia que você queria ir, dá próxima você me fala e se não for uma noite de meninas a gente vai junto. -Foi a melhor forma que achei pra responder.

-Não, não. Relaxa. Não vai ter próxima.

Achei que ele estava falando da próxima balada ou festa. Mas ele estava falando da próxima conversa, porque não me respondeu mais.


-Eu não sei o que eu fiz de errado!

-Ele gosta de você, te falei. -Gabriela disse com aquele ar de "te avisei, eu sei de tudo".

-Mas isso é problema meu? Isso é um problema?

-É problema quando você gosta de alguém e essa pessoa quer ficar com todo mundo inclusive com você? Pode ser que sim né amiga.

-Isso é injusto. Ele é tão bonito e legal. Não quero prender ele. Mas não posso mentir.

-As pessoas às vezes esperam mentiras. Acho que elas preferem isso a ouvir a verdade dolorosa.

-Mas não precisa ser dolorosa. -Disse o que pra mim era óbvio.

-Sofia, olha só eu sei que pra você isso de "relacionamento aberto" é uma coisa simples. Onde todo mundo pega todo mundo e ninguém cobrar ninguém de nada. Assim é um plano legal até, ao meu ver. Mas pra maioria das pessoas isso é ilusão. Algo que você só pode sonhar e nunca concretizar.

-MAS TÁ CONCRETO!

-Não amiga, não está. Vocês combinaram que seria assim?

-Gabi, claro que sim! Você acha que eu seria louca de namorar ele e depois ficar traindo loucamente? Não! Eu falei pra ele que não queria nada sério com ninguém, eu queria curtir e só ficaria com alguém quando me apaixonasse. Ainda não aconteceu, então estou mantendo meu plano. Eu tô tão feliz! Não sei porque certas coisas acontecem pra acabar com a minha alegria... -Fiquei um pouco desolada. E era tão verdade!

Eu não podia me obrigar a gostar de ninguém! E as pessoas sempre me pintaram como boba e apaixonada, sendo que isso não é verdade. Eu posso ser boba e apaixonada pela vida, mas não por todos os homens que eu conheço. Sou aberta a conhecer gente nova e amo a alegria de ter ao amanhecer um dia novo pra viver. Mas por outra pessoa eu só me apaixonei uma vez, não deu certo e terminamos. O que foi mais uma decepção pra todos que me conhecem. Acharam que eu ia sofrer dias intermináveis. Eu realmente fiquei triste, mas passou. Fiquei um pouco culpada por não ter chorado os três meses seguidos que todo mundo esperava que eu fosse chorar.

-É. Então eu não sei mesmo. -Gabriela disse encarando qualquer coisa na frente dela. -Você foi clara com ele pelo que você está dizendo e ele deve ter se apaixonado sem querer. Por isso a situação ficou estranha.

-Eu não acho que seja "sem querer". Desculpa, mas acho que se conducente, ele deixou se apaixonar por mim. Eu não fiz nada pra conquistar o Eva.

-Você chama o cara de Eva... Com certeza você fez ele se apaixonar por você. O seu jeito é esse, você faz todo mundo se apaixonar por você. Lembra do cara da sorveteria?

O cara da sorveteria me amava só porque um belo dia eu fui desafiada a falar "duas casquinhas mistas" o mais rápido possível ao fazer o pedido. A graça seria ver a reação dele ao me ouvir falando rápido e com meu sotaque carioca pesadíssimo.

-Duass caxquinhass mixtass. -Eu disse e ri.

-Isso! Foi uma coisa boba, mas ele passou a te dar sorvete sempre...

-Então eu sou simplesmente apaixonante? -Indaguei me achando um pouco e consertando minha postura.

-Ai que babaca, vai ficar se achando... -Gabi riu.

-Sou culpada disso? Como eu faço pra parar? -Um pingo de preocupação me subiu a mente.

-NÃO! -Ela exclamou bem alto. -Eu sempre falo que gostaria de ser mais eu mesma porque acho essa qualidade ótima em você. Então se alguém se apaixonar por você sendo você, isso não é ruim. É ruim pra pessoa se ela não for correspondida. O que é o caso do Eva. -Ela riu e revirou os olhos ao falar o apelidinho.

-Ai, caramba! É mais difícil ser eu do que eu pensava. -Disse com os olhos arregalados.

-Conversa com ele e sei lá...

-Não faço ideia do que conversar. Nem sei se ele vai querer.

-Se ele não quiser o problema é dele. Tem um monte de boy gato querendo ficar contigo, um só não vai fazer falta.

-Ai que cruel! Depois sou eu a doida do relacionamento aberto, né?

-Não. -Ela gargalhava. -Você não é doida, talvez esteja mais evoluída que as outras pessoas. Ciume é o novo mal do século.

Depois dessa conversa mandei mensagem para o Eva. Não sabia por onde começar.

"Eva, eu queria falar com você. Não sei o que tem feito nessa uma semana que você não fala comigo. Mas acredito que tenha algo errado e não quero que continue assim."

Ele respondeu marcando um lugar pra nos encontrarmos no dia seguinte.

-Oi!

-Olá. -Ele disse com um sorriso super forçado. -Posso ir direto ao assunto ou você quer que eu pegue leve?

Fiquei chocada com a determinação dele. Eva sempre foi meio "não ligo pra nada, não estou nem ai pra nada, não me incomodo com nada, deixa a vida me levar."

-Fale, por favor. -Sorri.

-Não quero mais ficar com você.

Ai. Doeu um pouquinho ouvir assim na lata. Mas eu esperava, então sorri e confirmei com a cabeça.

-Já esperava Eva, só não queria você com raiva de mim.

-Ei! -Ele arregalou os olhos. -Você esperava? Quer dizer que você nem liga?

Houve um pequeno bug no meu cérebro pra entender o que ouvi.

-É... Sim, você ficou sem falar comigo. Então imaginei que não queria mais ficar comigo. Mas eu gosto de você e não queria ficar brigada com você. Nem queria que você ficasse com raiva de mim pra sempre. A gente é amigo, poxa. -Fui o mais sincera e clara que eu consegui.

Ele me encarou um tempinho.

-Gosta de mim como? -Essa não parecia ser sua pergunta inicial. Ele formulou depois daquele tempo pensando.

-Ué, você é legal, engraçado e tá sempre de boa. Eu não gosto de gente que reclama sempre e nada é bom o suficiente. Pra você é como se todo dia fosse bom. E eu também levo a vida nesse estilo. Gosto disso em você.

-Eu também gosto de você.

Pausa para um novo bug. Agora quase uma pane no sistema.

-Eu -ele disse e olhou pra cima- achei que você queria fazer charminho pra "me segurar" e fiquei puto com isso. Não quero uma namorada. Namorei seis anos e fiquei cansado. Agora eu quero algo leve, curtir o outro lado. Entende?

Afirmei com a cabeça, sorrindo.

-Então -ele continuou -achei que era hora de parar de ficar com você, porque achei que você queria me namorar. Achei que você fazia coisas pra eu gostar de você. Você é sempre tão... -ele me olhou- tão carinhosa! Vários amigos me disseram que você ficava com outros caras em festas e eu rezava pra que fosse verdade. Porque não queria -ele sorriu- não quero parar de ficar com você. Mas também não quero namorar e hoje é tão difícil encontrar alguém que aceite algo assim igual ao que a gente tem.

Que fofinho! Ele achava que a gente tinha algo especial. Na verdade eu também achava.

-Ah Eva! Que bom que é isso! Foi tudo um grande mal entendido... Eu posso ser menos carinhosa se você acha que isso é meloso... -e parei um instante ao ver ele balançando a cabeça negativamente- Não é meloso?-Ele negou de novo. -Eu sou realmente muito carinhosa com todo mundo, é meu jeito.

-Eu gosto do seu jeito. Só não quero que você se apaixone e depois eu tenha que te fazer mal, você é uma garota legal.

Será que ele era minha alma gêmea?

-Puxei meu pai, ele é um amorzinho igual a mim. Um dia você vai conhecer ele. Mas ai te apresento como amigo. Porque o sonho da minha mãe é me ver casar e eu até quero, mas só daqui alguns anos.

Gabriela precisava repensar seu ponto de vista sobre relacionamentos abertos. E talvez eu fosse mesmo apaixonante, mas não do mesmo modo pra todo mundo. Eva gostava de mim e eu dele, mas ainda éramos fiéis a liberdade. Ficou tudo na perfeita paz, tipo aquela do pôr do sol.