4 de set de 2016

Reconstruir nosso passado


-O que você veio fazer aqui?

-Eu vim falar com você. -Admiti.

-Falar o quê Maíra?

-Eu não sei ao certo, mas eu precisava te ver.

-Você não sabe ao certo? -Ele disse e eu entendi enfim o que era "fuzilar" com os olhos.

-É. Desculpa eu não achei que você ia ficar bravo. -Fui sincera.

-Não ia ficar bravo? Eu ia ficar como? Feliz? Qual seu problema?

Eu não sabia o que responder. Qual era o meu problema?

Alan abriu a porta de casa.

Eu fiquei sentada ali na frente durante pelo menos uma hora e não consegui decidir o que realmente queria dizer. Quando ele chegou virou uma confusão ainda pior na minha mente.

-Entra. -Ele falou já do lado de dentro. Apenas obedeci olhando o chão.

Ele sentou no sofá e me encarou durante um minuto talvez. Respirando fundo. Parecia estar se concentrando no que diria. Até que fechou os olhos e os esfregou.

-Fala alguma coisa.

-Eu estou pensando no que dizer desde que sentei pra te esperar.

-Você deu sorte de eu voltar sozinho. -Ele se inclinou e apoiou os cotovelos nos braços.

-Você ia tá com quem? -Perguntei já me arrependendo. Nossa, sério qual era meu problema?

Voltei a ser encarada. Nunca vi Alan tão calmo num momento de raiva. Ele sempre explodia e gritava. Era algo muito preocupante.

-Você acha que eu te devo o quê? Por favor, não esperava isso de você Maíra. Você sempre foi tão inteligente e madura. Mesmo apesar das suas burrices, isso eu não esperava.

Então eu era burra?

Sim. Eu era.

Conheci Alan há uns 4 anos atrás e nós nos apaixonamos no momento em que nos vimos. Algo doido de se dizer, eu sei. Mas era realidade. Nunca pensei que amaria alguém daquele jeito. Essa coisa de perder o ar, o chão, borboletas no estômago e blábláblá. Aconteceu. Quando percebi estava completamente entregue a ele e ele a mim. Foi o ano mais incrível de toda minha vida. Não sei pensar nem sequer em um dos momentos mais felizes da minha vida em que Alan não estivesse. Era perfeito, nós quase não brigávamos, poderíamos conversar sobre qualquer assunto. Até nossos filhos tinham nome definido. Mas eu estraguei tudo.

Um belo dia conheci outro cara, que não vale nem um pouco apena nomear. Ele parecia tão legal e maduro. Comecei a me questionar se só ficaria com Alan durante toda a minha vida. Isso me soou monótono. Daí todas as minhas amigas me incentivaram a fica com ele. "Ele é mais velho, deve ser super experiente" e "ele mora sozinho vocês vão poder transar até no teto". Com Alan era tudo mais calmo e sereno. Eu queria experimentar algo diferente. Mas o problema não era das minhas amigas nem de Alan. Era meu e só meu. Sabia que estava errada desde o segundo em que disse sim ao ouvir "Quer passar lá em casa?".

Alan não descobriu nada. Mas eu não consegui esconder meu auto desapontamento. Eu me odiava, me sentia a pessoa mais suja do mundo. Terminamos, óbvio. Achei que aquilo seria meu fim, mas não foi. Arrumei algo para me ocupar e nunca mais namoraria na minha vida. Foi a promessa que eu me fiz.

Os meses foram passando e eu via o quanto eu tinha perdido na minha pequena aventura. Um mês se passou e eu quase fui procurar um médico. Porque eu sentia que estava morrendo órgão por órgão. Uma dor lenta e infindável. Mas eu aguentei.

No segundo mês eu achei que tinha superado. Até ver a primeira foto dele com outras pessoas. Não era uma garota, eram duas e mais três amigos. Ele estava... Vivendo. Continuando sem mim. Senti uma leve sensação de desmaio.

No terceiro mês me peguei contando quantas vezes eu pedi pra voltar. Foram umas oito pelo menos. As pessoalmente ele simplesmente disse "não, eu não quero mais ficar com você". E doeu, doeu tanto. As outras que foram por mensagem em momentos sóbrios e outros nem tanto, foram simplesmente ignoradas. Ele nem disse um "vá a merda". Porque se eu tivesse a raiva, o ódio, pelo menos eu teria algo. Mas eu tinha o nada. Não sobrou nada.

No quinto mês foi quando o vi de novo. E alguém me explicou que ele mudara pra algum lugar perto do meu novo segundo trabalho. Eu tinha dois pra me manter fora de colapso. Aquele dia foi o pior dia durante aquele tempo. Ele me olhou e eu me senti como aqueles cachorros abandonados. Ninguém quer cuidar, mas todo mundo fala "poxa é uma pena, tão bonitinho e abandonado".

Décimo mês. Poderia ter gerado uma vida. A minha ainda estava de cabeça pra baixo. Mas caminhando para um rumo melhor. Enfim eu conseguiria morar sozinha.

Décimo quinto mês.

-Oi, Alan.

Meu segundo emprego era de recepcionista e ele estava lá. Numa clínica de depilação. Isso era bom e diferente.

Ele tentou parecer distante.

-Olá, marquei as 14h.

Que droga. Ele ia fingir que não me conhecia! Tudo bem então.

-Ainda não são 14 horas, senhor. Mas assim que estiver disponível chamarei pelo nome. Ou prefere que grite o cpf pra parecer que não nos conhecemos?

Ele arregalou os olhos.

-Pelo nome, você é um horror com números Maíra. -Falou e foi sentar.

Que ótimo. O pouco raiva que construí dentro daqueles segundos se foram.

Peguei um dos cartões com número de contato da clínica e com alguns serviços, e escrevi meu número atrás. Pode ser humilhação. Mas eu tinha que tentar alguma coisa.

Quando ele pagou e eu emiti a nota entreguei também o cartão.

-Obrigada, senhor.

Ele olhou o cartão, depois para mim. Balançou a cabeça e foi embora.

Não ligou.

Terça, quarta, quinta, sexta...

Enfim o telefone tocou.

Era uma mensagem.

-Tem um bar legal perto de onde eu estou morando. Quer ir?

Li a mensagem trezentas vezes, não acreditava. Era impossível.

-Sim, que horas? -Conferi a hora no celular. Eu estava quase chegando em casa.

-Pode ser umas 21h.

-O.k. Eu te encontro lá.

Parecia o encontro da minha vida e de certo modo era.

Não trocamos uma palavra sobre nós. Bebi bem mais do que eu deveria e ele também. Saímos tropeçando de lá e fomos pra casa dele. Numa tentativa ridícula de tentar criar clima para sexo acabamos dormindo.

Saí de lá no dia seguinte o mais rápido possível e minha cabeça martelava.

Uma semana se passou e mais nenhum contato.

Era domingo e chovia tanto. Chorei como se não houvesse amanhã. Eu me sentia a pessoa mais sombria e sozinha. Sei que havia muito mais gente em condições piores. Minha culpa era tanta que eu me agarrava ao amor tão distante que tive por Alan. Que tenho. Ele era meu castigo.

Foi assim que parei na porta da casa dele.

-Eu já pedi desculpa. Por isso não posso pedir de novo. Sei que você não me perdoou pelo o que eu fiz. Mas eu acho tão difícil viver sem você. Meu último ano parece um velório. Todos os dias eu enterro minha felicidade percebendo a sua ausência. -Como a tristeza me deixou poética.

Ele balançou de novo a cabeça. Parecia que queria jogar fora os pensamentos. Eu também queria.

-Eu te perdoei. -Ele disse quando eu o olhei. -Mas não tive coragem de ir até você dizer. Queria que você me esquecesse. Queria que você sentisse o que eu sentia.

-E o que você sentia?

-Raiva, tristeza -fez uma pausa e olhou para o lado -ódio e -mais uma pausa- saudade.

Saudade ficou por último porque com certeza era o que ele mais sentia.

-Bom, eu senti raiva e ódio de mim. Fiquei triste por estar sem você e saudade eu sinto todo dia. Então você conseguiu. -Tentei fazer piada mesmo sem conseguir segurar minhas lágrimas.

-Eu estava certo de que tinha superado. Não pensava em você, não chorei mais, sai com outras mulheres e ai eu te vi aqui perto. Passei a olhar todo dia pra ver se você passava. Assim percebi que eu não tinha superado nada.

A frase final me alegrou um pouquinho.

-Lutei muito contra a vontade de te procurar. Só fiz quando descobri que você trabalhava naquela clínica. Minha ideia era só ver você e não sentir mais nada.

-Essa sua luta foi difícil mesmo. Foram meses de quando eu te vi até você ir lá. -Disse qualquer coisa pra esquecer da ideia dele de me esquecer.

-Foi difícil sim.

Voltei a encarar o chão. Não sei como no bar eu conseguia olha-lo. Era tão difícil.

-Maíra, acho que eu devo desculpas -ele tocou meu queixo e o ergueu. -Você fez besteira sim me traindo com aquele idiota. Mas eu te amava e deveria ter conseguido te perdoar mais rápido. Só que eu não pensava como agora, muita coisa mudou nesse tempo. O que importa é que não deveria ter te deixado sem nada. Ignorar você daquela maneira. E as coisas que eu disse... -eu chorava de soluçar- De verdade, desculpa. Eu fui um imbecil. Fui cruel. Você estava arrependida. Até hoje você deve se culpar. O quanto você tentou voltar... Eu só fiquei assistindo você se humilhar, achando que aquilo era o que você merecia. Como se tivesse cometido um crime. Nós dois erramos e eu mesmo consciente disso não quis dar o braço a torcer.

Era verdade. Ele estava tão certo! Nós dois erramos. Eu errei numa noite estragando tudo e ele errou em todos os meses que não me deixou nem ao menos tentar consertar. Eram erros diferentes, mas eram erros.

-Eu acho que somos muito jovens e temos muito tempo pra fazer do presente algo diferente.

Eu não sabia bem o que queria dizer com isso. Mas ele concordou e me abraçou. E naquele momento todos os problemas se foram. Todo meu mundo voltou a normal. Aquela escala de cores cinzas que tapavam meus olhos sumiram. Voltei a sentir vida em mim. Alan parecia sentir o mesmo pelo jeito que me olhava.

E agora nós teríamos um longo trabalho em reconstruir o passado com um novo presente.