18 de set de 2016

O último a saber


-Por que você nunca falou?

-Falei o quê?

-Que gostava de mim, que queria ficar comigo.

-Ah, porque tava na cara né Larissa.

-Tava nada. Eu desconfiava, mas não tinha certeza.

-Você também não falou nada. Por quê?

-Porque você é um ridículo e não queria que ficasse se achando a última água do deserto.

-Eu continuo achando mesmo assim. -Ela não segurou o sorriso.

-Eu não falei porque achei que você ainda gostava daquela Márcia chata. -Seria uma primeira cena de ciume?

-O que a Márcia tem a ver com isso? -Eu sabia o que, mas queria ter certeza se era uma ceninha.

-Ela é sua ex, seu besta. Você arrastava um bonde por ela e daí vocês terminaram sei lá por qual motivo.

-Porque ela quis.

Não seria babaca e mentir dizendo que eu terminei. Ela terminou comigo porque eu "não sabia ser sério" ou algo do tipo. Acho que era uma desculpa qualquer. Também acho que ela já estava com aquele outro cara bem antes de terminar comigo. Mas era a primeira vez que eu enfim ficava com a Larissa, não tinha como abordar todo esse assunto chato.

-Eu não queria parecer desesperada também. -Ela fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Parecia não querer dizer o que estava prestes a dizer. -Há muito tempo eu queria ficar com você, a gente se conhece há um tempão. Mas eu não me achava bonita, não me achava legal o suficiente pra você se interessar por mim.

Nossa! Eu achei seria demais falar do meu possível chifre e ela tava me confessando uma coisa muito mais séria! Só me vinha a mente uma pergunta...

-O que mudou?

-Não sei direito. -Ela abriu os olhos e me encarou. Eu estava deitado de bruços e sem camisa. Não ia aceitar essa resposta, fiquei curioso.

-Sério, do nada você era Beth a Feia e agora você chega aqui em casa, faz tudo isso -apontei pra cama bagunçada e depois pra minha camisa que ela vestia -não é possível que não tenha sido nada. -Ela sorriu concordando.

-Eu cansei de me fazer de vítima. Ninguém disse que eu era feia, ninguém disse que eu era ruim. Só eu dizia isso a mim e demorou a eu perceber que a maioria das pessoas não concordavam. Não conseguia me ver como alguém legal e divertida. Todo mundo dizia isso de mim. Era inacreditável como eu me sentia a pior pessoa do mundo. Não no sentido de fazer coisas do mal, mas sim por fazer coisas inúteis.

-Meu Deus! -Arregalei os olhos. -Isso é um assunto maravilhoso pra um primeiro encontro! -Afirmei e me ergui um pouco pra bater palmas irônicas.

-Vai pra merda Flávio!

Consegui abaixar a cabeça rápido antes de tomar a travesseirada.

Ela estava sorrindo quando eu a olhei novamente.

-Você quis saber. -Ela me apontou acusando.

-Tudo bem. Sou culpado. -Ergui as mãos.

-Não preciso te impressionar.

-Não mesmo. Eu já estou impressionado há muito tempo. -Sorri. -Mesmo nessa época ai que você estava em conflito interno. -Ela fez uma careta. -Mesmo quando eu namorava a Márcia. -Pisquei.

-Isso não é algo bonito de se dizer. -Ela conteve o sorriso dos lábios, mas não dos olhos.

-Também não foi bonito ela decorar minha cabeça. -Me coloquei um chifre com as mãos.

Ela gargalhou.

-Achei que você não soubesse! -Ela ainda ria.

Todo mundo sabia? Menos eu? Eu realmente fui o último?

-Eu soube. Demorei, mas soube.

Ela riu mais alto.

-Você quer acordar todo mundo? -Só queria fugir daquele assunto. Estava lidando bem com a dúvida, mas agora eu tinha certeza e não queria continuar falando sobre a minha ex.

-O quê? -Ela se endireitou tão rápido que até eu sentei na cama e olhei pra porta. -Você falou que estava sozinho!

-Ai! -Não esperava o tapa no braço.

-Calma. Ninguém vai saber que você esteve aqui se você não quiser. É só sair depois deles amanhã.

Ela levantou.

-Ei, calma ai. -Pedi. -Não é nada demais. Eu sou gradinho, tenho permissão pra trazer quem eu quiser no meu quarto.

Fui até ela que tinha achado o short.

-E se eles ouviram alguma coisa? -Ela me encarou tão séria que eu ri.

-Não tem graça! Que saco!

Eu ri de novo, mas fiquei sério porque ela parecia querer me matar.

-Ninguém ouviu nada. Vem cá. -Eu a puxei pra perto de mim e segurei seu rosto. Por que eu não tinha tentado ficar com ela antes? Que perda de tempo. Ela era tão linda e incrível. -Fica tranquila porque até se alguém ouviu não vai falar nada. Eles vão sair amanhã cedo e você pode ficar escondida aqui se quiser.

-Eles quem? Todo mundo? Seu pai, sua mãe e sua irmã?

-Meus pais só. Minha irmã não, mas ela é minha parceira. Sério, não tem com o que se preocupar.

-Tá bom então. -Ela relaxou os ombros e encostou a testa no meu queixo. Sem pensar eu beijei sua testa.

-Beijo na testa no primeiro encontro? -Ela se afastou pra me olhar de novo e eu sorri.

-Sim. Qual problema?

-Nenhum. É só uma coisa muito fofa pra um primeiro encontro. Pelo menos eu acho.

-Você tem um histórico de ideias bem equivocadas.

-Essa está certíssima. Coisa de apaixonado. -Ela sorriu e me olhou com aquele ar de quem sabe o que está falando.

-Talvez eu esteja. -Falei olhando a parede atrás dela. -Talvez não. -Encarei ela de novo.

-Tudo bem. Eu admito ser a última saber.

-Ah, não esse assunto de novo não.

E nós dois rimos.