2 de set de 2016

Não vejo amor nos filmes


Ah, ele nunca foi o cara com quem eu sonhei estar. Sempre pareceu andar no mundo da lua. E isso era estranho pra um cara. Na minha cabeça cheia de preconceitos era estranho. Até o dia que tivemos que fazer um trabalho juntos e precisei ir até a casa dele. Não acreditei quando entramos no quarto e não vi pôsteres do Satr Wars ou Senhor dos Anéis. Na verdade era um quarto normal, com uma esquisita parede amarela. Só uma. Mas tinha vídeo game e uma cama bem confortável, que foi onde eu não sentei. Parecia estranho e errado sentar nela, afinal nós mal nos conhecíamos e eu achava ele bem esquisito. Fala sério, eu falava mal do cara.

Desse dia em diante pude conhecer quem ele realmente era e do que realmente gostava. Apesar daquele jeito esquisito e aquele cabelo grande que eu achava horroroso. Não, essa parte do cabelo não era por preconceito. Mas eu acho que todas as pessoas do mundo deveriam ter cabelo curto. Por isso eu cortava o meu no estilo que as pessoas chamam de "joãozinho". Só que obviamente a população mundial não concordava comigo e muita gente ainda tem cabelo abaixo dos ombros.

O esquisito começou a se tornar legal pra mim. Começamos a fazer tudo juntos e eu percebi que ele não era o tipo de cara que dá em cima de todas as amigas. Primeiro porque ele só falava com outros caras. Segundo porque ele simplesmente queria ser meu amigo, trocar idéias e assistir uns filmes. Pois é! Quando ele me chamou pra ver um filme, também achei que seria outra coisa e me senti uma pateta por ter que "decepcioná-lo" assumindo que meus reais sentimentos eram de amizade. E ele riu dizendo que nunca pensou que não fosse. Acabei indo ver o maldito filme, era o que me restava pra salvar a cagada toda. Virou uma coisa só nossa. E gostei.

Demorou, mas percebi que eu esperava coisas dos homens pelo que eu via na tv, nos filmes e nos livros. Eu esperava um cara alto, forte, loiro, de olhos claros e que me dissesse "você é a coisa mais maravilhosa que já aconteceu em toda a minha vida" e me beijasse. Agora eu paro e penso "POR QUE DIABOS EU QUERIA ISSO?". Não sei com exatidão o momento em que as coisas externas começaram a ser mais importante do que as internas. Não sei quando eu comecei a ignorar o que eu pensava pra poder pensar igual aos outros. Mas houve esses momentos e eu me odeio por deixa-los existirem.

Ele, que por acaso se chama Rafael, me conquistou com as pequeninas coisas que ele tinha e fazia por mim. No início era só "ei pega aqui meu casaco, tá muito frio". E depois "me liga quando você chegar", "cuidado, ai onde você tá é perigoso", "se precisar de alguma coisa fala comigo que eu vou ai correndo". E ele ia correndo mesmo. Até o dia que perguntei "Rafa, você não acha que faz demais por mim?" e ele disse "não, você acha que faz por mim?". Respondi que não. Pois tudo que eu fazia era de coração e não por obrigação. Parecia tão involuntário quanto o bater de um coração.

Muita gente precisou dizer "ah por que vocês não assumem logo que tão juntos?!" pra gente começar a desconfiar dos nossos sentimentos. E olha nunca passei por uma situação tão estranha. Nós dois queríamos falar sobre isso, mas ninguém tinha coragem. Era nítido meus ciumes por ele e o medo que ele tinha de que eu me apaixonasse por alguém e não contasse. Ah a juventude...

Depois de muito conversar, nós combinamos que tentaríamos ficar juntos. Assim juntos mesmo. Como namorados. E eu me arrependi no mesmo segundo que concordei. Nosso primeiro dia de "namorados" foi a segunda situação mais estranha da minha vida. Nós nunca tínhamos namorado e não tínhamos nenhum jeito com nada. Eu tava tão tensa e fiquei tão dura no sofá que fui dormir com dor nas costas. No dia seguinte nem nos falamos. Nós estragamos tudo!

Passamos quase uma semana evitando ir na casa um do outro e chegar perto de qualquer forma. Até que não teve jeito. Era aniversário da irmã mais nova dele e eu não podia faltar. Quando eu cheguei e o vi, quase desmaiei. Ele cortou o cabelo e trocou de óculos. Nossa... Ficou incrível. Claro que eu já não importava tanto assim com aparência, já havia ali um sentimento. Mas a mudança pra melhor veio em uma hora tão boa. Ele reparou minha cara de boba e disse "gostou? É pra parecer que sou um cara diferente. Posto novo, cabelo novo". Depois éramos nós dois novamente. Sem tensão, sem estranheza.

Daí as pequenas coisas voltaram. Eu conseguia enxergar naquele cara o mesmo cara de sempre. O rafa que me ajudava, o rafa que sem dizer nada me pedia carinhos, o rafa que fazia minha vida mais leve e divertida. Era o cara que me permitia ser eu mesma sempre. Sem vergonha, sem medo de julgamentos. E essa história é tão boba, mas tão maravilhosa ao mesmo tempo que ainda não entendo porque algumas pessoas acham que o amor é algo que só está exibidos nos filmes e que tudo que difere não é amor. Relacionamentos reais são diferentes e acredite: quanto menos idas e vindas melhor. A malhação é só uma novela teen.