10 de jul de 2016

Eu preciso ir


Eu sei que às vezes pode soar como drama, mas quando uma coisa ruim acontece parece que tudo o que vem a seguir são desastres. E só olhando bem de fora da situação você consegue perceber que na verdade nem era tão ruim assim.

-Eu sei Fernanda, que a gente é amigo e a gente se dá bem. Mas eu... Eu não consigo mais continuar com isso. Desculpa! Eu não gosto mais de você como antes.

-Gabriel você não pode terminar comigo e me deixar assim. -Ela repetia a mesma frase aos prantos.

-Eu sei que é ruim, mas... Olha por favor não deixa tudo mais difícil. Eu quero que a gente fique bem, só que não como namorados. Você prefere que eu te engane? Eu tô sendo sincero com você!

-MAS GABRIEL VOCÊ NEM TENTOU! Você já terminando comigo de cara! -Fernanda respirou fundo apesar das lágrimas caírem sem parar. -Por favor.

-Não posso, não posso ficar com você porque você está me pedindo. Não posso tentar amar você. Ou a gente ama ou não ama.

-Mas Gabriel EU te amo. E eu amo pela gente, até você me amar de novo.

-Nanda, desculpa. Mas acho que não seria "de novo". Sério, me perdoa, eu vou embora. -Gabriel disse a caminho da porta.

Ele desceu o lance único de escada e foi embora. Quase um minuto se passou até que Fernanda finalmente tivesse absorvido ao choque e descesse atrás dele.

Chovia. Chovia muito. Uma chuva torrencial dessas de verão. Dessas que dão medo.

-GABRIEL! -Ela gritou quando o viu atravessando a rua e correu na direção dele.

-Caramba Fernanda! Vai pra casa. Tá chovendo pra caraca garota! Você vai ficar toda doente, volta logo pra casa. -Ele disse enquanto ela se aproximava.

-Não! Eu não vou! -Ela chegou mais perto. -Eu vou ficar aqui até você voltar comigo. Voltar pra minha casa e voltar pra mim.

-Não, não. Você vai voltar sem mim. Vai logo. -Ele a puxou pelo braço. -Vem pra cá. -Ele a levou pra debaixo do ponto de ônibus. -Escuta aqui, você não pode fazer isso. -Gabriel olhou pra cima. -Não dá pra insistir numa coisa que não está dando certo Nanda. A gente vai ficar melhor separado.

-Não a gente não vai. Olha lembra que você disse que nós nascemos um para o outro? Eu espero você me amar. Não tem problema, a gente tem todo tempo do mundo.

-NÃO! -Ele disse alto, quase em um grito. -Por favor Nanda, eu não quero ficar brigando o tempo todo. Vai pra casa. Eu to indo pra minha, por favor. Vai.

-Eu já disse que não vou, você tem que ir comigo. -Ela falava baixinho entre os soluços. -Eu não vou ficar sem você. -Ela olhou pra ele. -Eu não vou viver sem você!

Gabriel a olhou nos olhos e viu o desespero daquela menina que, por vezes, era mais filha que namorada.

-Ta bom. Eu vou te levar em casa, mas depois eu vou para a minha casa. E você vai ficar dentro da sua casa quietinha. Vai tomar um banho e vai ficar bem. Pode ser?

-Vai dormir lá? -Ela sorriu forçado.

-Nanda... Vou te levar lá, vamos.

Os dois correram de volta para a casa.

-Vai lá tomar banho. Eu to esperando aqui fora.

-Mas e se você for embora sem eu ver?

-Eu não vou, eu prometo que não vou. Pode ir lá tomar seu banho.

Ele fez como o prometido. Permaneceu sentado na sala, tentando se secar com uma tolha. Esperando.

-Pronto. - Sentou ao lado dele. -O que a gente faz agora? Você quer tomar banho também?

-Não. Fernanda, eu não quero tomar banho. Eu quero que você entenda que a gente não vai ficar mais junto. Mas você vai encontrar alguém que queira ficar com você.

-Não meu amor, eu quero ficar com você. O que eu fiz de errado? -E o choro voltou.

-Nada! Fernanda você é uma garota incrível. Não é porque eu não quero ser seu namorado que isso muda. Entende?

-Você também é incrível! Por que a gente não pode ficar juntos? -E o encarou.

-Nanda, você tem que me ouvir. Eu não aguento mais dizer a mesma coisa. Eu não amo você. Eu não amo. Entende isso. Por favor.

-Mas por quê? Quem você ama então? Quem é essa que você ama? O que ela tem que eu não tenho?

-Eu não amo ninguém. Eu amo meus pais, a mim mesmo, sei lá alguns amigos. Não tem uma garota em particular. Não é por outra que estou terminando. É por você e por mim. Porque esse relacionamento não vai funcionar mais. É preciso ter amor num relacionamento Fernanda. Você sabe disso. Eu não posso continuar fugindo de dizer que te amo toda vez que você diz me amar. Também não posso continuar mentindo quando não consigo fugir. Você tem que ser forte e entender isso. Tem que entender que eu posso não te amar, mas vários outros caras podem.

-Eu entendo. Mas eu não consigo acreditar. A gente tá junto há um ano... Minha família te adora. Eu fazia tantos planos. -Enfim o choro cessou. Ela parecia mais calma.

-Eu sei Nanda. Desculpa. Se você quiser eu posso telefonar pra sua mãe ou alguma coisa assim. Eu não queria magoar você. Nunca quis, por isso eu enrolei até aqui.

-Não quero que você ligue pra ninguém! -Ela disse firme e sem lágrimas. -Eu não sou uma criança.

-Tudo bem, então eu não ligo.

-Você acha que sabe de tudo né Gabriel?

-O quê? Ai não. Fernanda eu não quero brigar! Pelo amor de Deus.

-VOCÊ TERMINA COMIGO E NÃO QUER BRIGAR? -Gritava ela já em pé.

-NÃO EU NÃO QUERO! EU QUERO QUE VOCÊ ME ENTENDA! Fernanda você quer que eu faça o quê? Me diz! Minta? Você quer viver uma mentira?

-Eu quero que você seja sincero de verdade! Até o fim. Você tá acabando comigo com esse término! Eu achei você estranho a semana toda, mas achei que não era nada! Então fala EXATAMENTE O PORQUÊ.

-Eu já te disse mil vezes!

-Diga duas mil! VOCÊ NÃO ME AMA E POR QUÊ? -E voltou a chorar.

-Não sei o porquê. Simplesmente não amo.

-E o que faltou? O que eu tenho que você não gosta? -A voz carregada de mágoa.

-Pra começar isso que você está fazendo agora. Você precisa se valorizar mais Fernanda. Como uma mulher que você é. Não mais uma garota. Uma garota dependente. Eu não sou só seu namorado, sou também uma espécie de pai que você não teve. Isso sempre foi muito difícil. Mas eu estava apaixonado, então tudo bem. Só que o amor é o que sobra da paixão. E ele não veio, não da minha parte. Você não pode se humilhar desse jeito como se eu fosse o último cara do mundo. Eu sei que você gosta de mim e sei que isso é difícil pra você. Pra mim também é. Você é importante pra mim, não gosto de te ver mal. Mas não posso continuar com uma mentira, com algo que não tem futuro. Você tem que me deixar ir.

Ela estava de costas, olhando a chuva pela janela.

-Nanda?

Secou as lágrimas e o encarou.

-Você vai sumir né? Exatamente como você fez com a sua ex.

-É melhor pra você não me ver durante um tempo, mas eu sei que vou voltar a te ver.

-Eu espero que não.

Depois disso Gabriel foi embora e só se encontraram de novo dois anos depois.

"Eu o vi na fila daquele maldito show que nem queria ter ido. Mas não senti nada. Talvez um pouco de raiva. Passei direto e ignorei que ele tinha existido. Um dia quem sabe eu consiga encarar ele de novo. Afinal graças a ele me livrei de outros três caras péssimos. Acontecimentos ruins nos põe no eixo. Aquele término o qual eu me envergonho me ensinou isso. Gabriel foi a melhor e pior coisa que eu vivi e também aprendi. Mesmo que anos se passem eu não vou esquecer do que ele disse, pois estava certo. 'Vários outros caras podem me amar.' E eu espero encontrar o amor da minha vida. Enquanto isso não acontece eu vou me arriscar sem medo. Sem dependência também. Eu sei que devo muito a ele e pode ser que eu consiga agradecer um dia, ou não."