6 de jun de 2016

Sair na chuva


Muita gente já deve ter usado a frase "eu gosto de chuva, mas pra ficar dentro de casa". Eu vivo usando. É chato se arrumar, colocar uma roupa legal, usar maquiagem e ir para as ruas ficar ensopado. Mesmo que use o guarda-chuva. Sempre molha alguma parte da gente. E o pior (mulheres entenderão) é quando você vai a algum lugar com uma bolsa minúscula e sabe que não tem onde por o guarda-chuva. O que fazer? Sim, é um dilema bobo. Mas acontece.

Por motivos anteriormente citados e por outros como preguiça, falta de coragem, frescura e sinônimos desses, eu parei de sair em dias de chuva. Apenas quando é algo que não posso faltar ou quando eu já estava fora e a chuva chegou. Era uma constante fuga. Fiz com as inocentes gotinhas que caem do céu o que fazemos com o que não sabemos lidar nessa vida. Transformei-as em um monstro que eu precisava fugir.

Costumamos criar muitos monstros ao longo da vida. A tristeza é um monstro, a raiva é um monstro, a dor é um monstro, a preguiça é um monstro, o ódio é um monstro. Qualquer sentimento/momento/acontecimento que não seja feliz e alegre é digno de repulsa e do esquecimento. Temos que fugir dele e nunca mais chegar perto. Já fiz outros textos sobre isso, mas não canso de dizer o quanto é errado. Podemos sentir tudo e não fazer um caos nem dentro nem fora da gente.

Quando enfrentamos um situação-problema escolhemos entre duas opções. Pensar nela o tempo todo e transformar aquilo em algo gigante. Ou podemos ficar aflitos e não pensar de jeito nenhum naquilo, por nos sentirmos culpados e incapazes de lidar com ela. Porém existe uma terceira opção, que dificilmente é percebida, mas existe. Decidir se o problema tem ou não resolução. Resolver quando houver e deixar para lá quando não.

A situação-problema sair na chuva pode ser resolvida com não sair de casa. Mas isso pode gerar insatisfação, não é? Então podemos lembrar que nos molhar um pouquinho não mata. Talvez possamos usar um sapato de um material que não absorva a água tão fácil. Para evitar o cabelo bagunçado pelo vento, que tal um penteado? Ou não! Bagunçado é a última moda (só uso essa no meu). Enfim, é só chuva. É só água. Não morde.

As situações-problemas ligadas a sentimentos podem ser ainda mais fáceis de lidar. Você nunca vai controlar totalmente seus sentimentos. Você não pode guardá-los numa caixinha e achar que isso nunca vai incomodar. Mas pode falar sobre, pode tentar resolver, pode não sentir repulsa por si próprio ao estar num momento difícil. Pode não se culpar, pode não se sentir mais mal do que o necessário. Pode lembrar que nenhuma tristeza é eterna. Temos a capacidade de mudar, de nos reinventar. Sei que às vezes nos sentimos tão pequenos que até um chuvisco acabaria com a gente. E esses momentos passam. Quando passar você verá que não precisa de guarda-chuva, porque não precisa ter medo de se molhar. Assim como podemos ser nossa própria tempestade, também podemos ser nosso próprio arco-íris.

Por fim voltei a sair em dias chuvosos. Por mais gigantes que sejam as gotas, ainda não são maiores que eu. E se forem muito grandes, muito mesmo, usarei uma bolsa que caiba um guarda-chuva.