19 de jun de 2016

Marcos, vinte e oito anos



Dois anos morando num micro apartamento numa cidade estranha para mim. Vivo o clichê das grandes metrópoles: cheia de gente por perto e ainda me sinto sozinha. Tentando "ganhar a vida" passo a semana toda do escritório para casa. É difícil um final de semana que tenha ânimo de sair e curtir a noite de São Paulo. O último que tentei foi um desastre. Todos aqueles caras que chegaram até a mim me deixaram entediada. O motorista era bem mais engraçado e conseguiu prender minha atenção de um jeito que nenhum dos outros prendeu.
Infelizmente tenho a festa de uma amiga para ir essa sexta. Digo "infelizmente", pois estou casadíssima. Não sei conseguirei ser uma boa companhia para ela e os demais que estarão na lá.

Resolvi dividir o uber com uma colega de trabalho, queria chegar rápido em casa.

-Ali Júlia! Chegou, vem.

Entrei atrás e ela na frente.

-Boa tarde. -Disse o motorista.
-Boa tarde. -Respondemos juntas.
-Boa noite. -Corrigi depois de ver a hora.

Enquanto respondia as várias mensagens do meu celular não percebi o caminho.
O carro parou.

-Tchau Júlia, até segunda!
-Tchau! -Disse espantada por ter andado tanto e não ter percebido.

-Nossa, foi rápido! Nem percebi. -Comentei meio atônita.
-Queria mais devagar?
Essa pergunta pareceu um pouco ambígua.
-Não, eu realmente preciso chegar rápido em casa.

Vi o homem me observar pelo retrovisor e isso me deixou um pouco assustada.

-Eu acho que conheço você. Posso chamar de você?

-Pode. Não lembro de você, me desculpa. -Respondi.

-Sua amiga, Carla. Conheço ela, é minha prima. Fiz um favor num final de semana de buscar ela, você e mais duas de uma balada. Você quis me dar dinheiro e eu neguei. Lembra? Acho que você estava um pouco bêbada.
Eu ri.

-Um pouco? -Ri mais.
Ele riu também.

-Eu não quis ser indelicado. -Disse entre risos.

-É que eu estava um pouco desapontada com os homens daquela baladinha. Todos uns chatos, fazendo perguntas robóticas. Teve um que fez com que eu me sentisse numa entrevista de emprego. Quantos anos? Qual seu nome? Quando você nasceu? Só faltou "diga um defeito e uma qualidade sua". -Rimos.

-Eu tenho vinte e oito, me chamo Marcos, nasci dia 19 de agosto, meu defeito é ser muito perfeccionista e a qualidade é minha sinceridade.

Gargalhei horrores agora.
Lembro do porquê eu ri tanto aquela noite, foi esse cara. A maior virtude de uma pessoa é o bom humor. Saber rir e fazer rir é tudo.

-Foi boa essa. Tá no emprego errado, deveria ser comediante. -Debochei um pouco e ele riu.

-Nada, eu gosto desse. É você quem está frequentando os lugares errados e por isso achou os caras entediantes. -Eu o vi me olhar novamente.

-Onde você sugere? -Um lapso de coragem me fez dizer isso. Eu estava flertando com esse cara que se chamava como mesmo?

-Modéstia a parte, a minha casa é ótima. -Ele me olhou rapidamente.

Não sabia o que responder. A culpa foi minha. Por que perguntei isso? Ele percebeu meu silêncio.

-Relaxa, eu não sou um maluco. Você deve ter alguém te esperando em casa, já que está com pressa.

Não respondi. Minha rua era a próxima. Não estava pensando direito.
Fala sério, sou solteira! Qual o medo?
Peguei um papel e anotei meu número.

-Na verdade não tem ninguém me esperando em casa. -O carro parou na frente do meu prédio. -Mas não posso furar o compromisso de hoje. -Abri a porta e entreguei o papel. -Amanhã não tenho compromissos.
-Eu não tenho nenhum compromisso depois dessa viagem. Se você quiser te espero aqui e te levo.
-Ah vai, pode subir. -Eu disse.


Cheguei quase 4 horas depois na festa. Sozinha, porque concordamos que seria estranho ele aparecer lá.


Até que os finais de semana melhoraram. Eu venho conseguindo rir mais nas diferentes viagens do escritório para casa dessas sextas-feiras.

-Boa tarde,
-Boa noite. -Eu disse.
-Você é André né?
-Sim. -Ele sorriu.