5 de jun de 2016

Como antes


-Alou?

-Oi. É... Lara, é o Thiago. Tudo bem?

-Oi! Tudo, mudou de número hein.

-Sim, faz um tempinho. Deixa eu te falar, queria saber se essa semana você tem algum tempo pra me encontrar.

Estranho, muito estranho.

-Tenho, mas por quê? Aconteceu algo?

-Não, não. Nada demais. Eu só queria conversar com você umas coisas. Pode ser sexta?

-Sexta amanhã? Ou a próxima sexta?

-Sexta amanhã. Pode?

-Pode. Vem de tarde. Tá bom?

-Tá ok, até.


Por que Thiago me ligou depois de meses sem nenhum contato? Não acho que ele queira insisitr numa volta ou algo do tipo. Na verdade ele tava tão sério que nem sei o que pensar.

-Oi. Entra ai.

A sensação ao vê-lo foi no mínimo esquisita. Depois que terminamos, nós não nos vimos mais do que duas ou três vezes. Ficamos quase seis meses sem nenhum contato. Nosso término não foi caótico, cheio de brigas e tudo mais. Tiveram algumas discussões desnecessárias. Mas eu já passei por términos antes desse, eu sabia que brigar um monte era inútil, sabia que não era o fim do mundo e por isso soube lidar de forma diferente dele. Eu era a primeira ex namorada de um cara super pegador. O ponto é que eu vi meus ex namorados, convivi com um deles e foi difícil no início. Passou e talvez por esse motivo eu não tenha a mesma sensação ao revê-los.

-Pintou a parede da sala hein? Tinha razão, ficou bom mesmo.

-Eu que pintei. Eu e Diogo.

-Tu deixou ele pegar num rolo de tinta? Eu não deixaria teu irmão pintar minha casa.

-Meu irmão -eu ri- às vezes ele é mais seu do que meu. Vive na sua casa que eu sei.

-Eu cheguei primeiro na vida dele, desculpa. Mas não precisa ter ciume.

Rimos.

-Eu não tenho. Você sabe. Os dois chegaram no mesmo dia na minha vida, mas vocês tinham ciume um do outro quando eu e você namorávamos.

-Acontecia sem querer. -Ele forçou uma risada. Parecia que eu não era a única desconfortável.

-Então? Qual a grande conversa?

-É... Então... Bom... Olha, sei que já faz tempo... Faz tempo que terminamos e você pode estar em outra e tal. Mas eu queria falar com você. Aquelas... -Ele olhou pra mim pela primeira vez durante todos os minutos que estive sentada bem ao lado dele no sofá. -Aquelas coisas que eu falei, foi tudo tão estúpido. E desnecessário também. Eu fiquei um tempão pensando nisso. E porra! Como eu fui idiota falando aquelas coisas pra você. No fundo você estava certa em ficar com raiva e tal. Eu não vi isso no momento e comecei a deduzir um monte de coisa daquele seu ex que ficava te procurando. Mas eu deveria ter acreditado em você. Eu não deveria ter feito o que eu fiz ou dito o que eu disse. -Respirou fundo- Eu queria muito te pedir desculpas. Diogo, você e eu a gente vivia junto, saindo e tudo. Depois que a gente começou a namorar, ainda dava pra fazer isso. Você lembra, não lembra? No início ele ficou meio puto, depois aceitou. Mas depois que a terminou ficou tudo uma droga. Ele não tem raiva de mim, nem de você eu imagino. Só que perdeu isso. Quanto tempo a gente não se vê Lara? Tem muito tempo! E a gente vivia junto! Eu me sinto muito culpado por tudo e precisava te falar isso. Você sempre foi a pessoa com quem eu conseguia falar as coisas.

Fiquei um tempo olhando a testa dele fingindo que olhava pra ele. A minha cabeça estava rodando.

-Lara? Pelo amor de Deus fala alguma coisa.

Olhei de verdade para aquele cara sentado na minha frente. O cara que eu me apaixonei e numa briga tudo se foi. De repente.

-Pra falar a verdade, eu nem sei o que dizer. Isso pra mim é passado, não precisa pedir desculpa. Aconteceu, brigamos e todas aquelas coisas. Eu não esperava que um dia você fosse voltar atrás nessa história.

-Como não? Eu tentei falar com você várias vezes e você não quis me ouvir. Não to jogando na sua cara, mas entende?

-Sim. É eu sei que parte do afastamento é minha culpa. Mas eu achei que você precisava disso.

-Por quê? Você achou que eu ia tentar te agarrar do nada? -Ele riu. Agora riu de verdade.

-Não, seu palhaço. Eu achei que você precisava de um tempo longe de mim, pra sei lá. Pra esquecer e ficar mais calmo.

-Não funcionou. Eu não esqueci. Fiquei mais calmo do que aquele dia da nossa discussão. Mas eu não tenho o costume de ficar daquele jeito.

-Thiago você lembra o que você fez?

-Eu sei, eu briguei com aquele babaca lá. Mas eu não sou de fazer isso. Fala sério?

-Tudo bem, tudo bem. Eu não quero ficar revivendo isso. Passou e é isso que importa.

-E você?

-Eu o quê?

-Ficando longe você esqueceu? O que você sentia por mim passou?

Dizer não seria mentir. Dizer sim poderia criar alguma esperança.

-Thiagou pra que você veio aqui afinal? Pedir desculpas ou o quê?

-Eu vim falar, vim esclarecer as coisas. Saber de você, porque não nos falamos faz muito tempo. Caramba! Não é possível que só eu sinta falta de... De tudo Lara! Conta o que tem acontecido com você. Vamos só conversar, como antes de tudo.

Engatamos uma conversa quase de amigas, se não fossem as piadinhas dele. Falei do meu trabalho, das loucuras que eu vivi nele. Ele me contou sobre as viagens que ele fez, das pessoas que conheceu, e deu bastante detalhes das cidades, das músicas. Contou do mês que passou com os pais e algumas garotas que ele conheceu. Falamos de planos para o futuro e de coisas do dia-a-dia. Política, economia, os memes da internet, tanto assunto que a fome bateu e pedimos pizza. Entre uma mordida e o outra não ficava silêncio. Era tanta novidade, tanto a falar, tanto a contar, tanto pra rir, tanto pra compartilhar.
Em alguma história mais longa que ele começou a narrar, eu viajei. Viajei reparando nos olhos mais alegres que eu já vi. Estava com a barba linda, do jeito que eu amava e ele nunca deixava. A risada de Thiago fazia qualquer um querer rir junto. Ele não era um modelo, mas chamava atenção fácil. E quanto mais reparava mais beleza enxergava.

Em um dos poucos momentos de silêncio ele preencheu dizendo:

-Ficou muito bom seu cabelo assim.

-Obrigada. Eu gostei da barba também.

Falamos, falamos, falamos, chegamos mais perto no sofá. Depois nos esbarramos na cozinha na hora de fechar a geladeira.

É. Eu não sei por que neguei isso pra mim. Não sei o porquê de às vezes eu tentar controlar o que eu vou sentir. Nunca deu certo e dessa vez não foi diferente. O pior é que nem ele sabia que com aquela conversa toda me faria sentir exatamente como antes. Antes do término, antes da briga, antes até de estarmos juntos. Quando o "amigo do meu irmão" chegava e meu coração parava alguns segundos esperando ele entrar na sala.

É exatamente assim que estou agora. Como antes. Como ele queria. Como eu queria e teimava em negar.