29 de mai de 2016

Ponto final



-Olá. -Disse o rapaz despretensioso.

Sempre achei fofo quem cumprimenta dizendo "olá" e não "oi" ou "eai".

-Olá!- Respondi e sorri.

Nos conhecemos de maneira inesperada, porém clichê (se for possível essa combinação).

Eu sabia todos os seus gostos. Filmes de terror eram os seus preferidos. E os meus também, nunca perderíamos uma só estréia. Você também gostava de xingar de uma maneira boba, usando palavras com outros significados. "'Porra' tem significado e não é a ele que você atribui quando xinga por bater o dedinho, deixe-me usar os xingamentos que eu quiser." É, você tinha razão. Sempre cheio de si.

Todos que nos conheciam sabiam da nossa loucura de casal. Éramos atípicos. Sem muita melosidade e tudo mais. Mas era incrível da mesma forma.

-Eu quero flores amarelas no arranjo do seu buquê.

-Por que amarelas? Eu prefiro rosas.

-Podem ser rosas amarelas.

-Ai seu idiota! Eu não estou falando do tipo de flor, estou falando da cor. Eu não quero amarela, quero rosa.

-Ah não. Então vermelha! Azul! Azul! Mas rosa não, odeio rosa.

-Eu gosto de vermelha, mas não fica muito exagerado pra um casamento?

-Amor, não tem isso não. Você pode ir com um buquê feito só dos cabinhos verdes das flores e ninguém vai falar nada.

-Tudo bem, então vermelhas.

Como eu disse, sempre cheio de si. Você me convencia das ideias mais malucas. Sexo na praia, fandangos com chocolate, mostarda com bolo. Pra você e para o seu cabelo perfeito tudo era possível. Nossa, como eu queria ser mais como você. Sempre fui mais do tipo que se esconde, que finge que não existe, dessas que quase ninguém se lembra da época do ensino médio. Você era destaque. Onde você ia alguém reparava na sua presença.

-Vamos amor, descreve ai mais ou menos como você quer.

-Eu gosto de casa, mas tudo bem se tiver um apartamento pra olhar.

-Ela gosta de varanda sabe? Tem como o senhor descolar uma casa com varanda boa? Ou um apartamento.

-É! Eu gosto de varanda. Eu gosto de poder ver o céu também. É ruim morar num lugar onde não se pode ver o céu. Então se for apartamento tem que ser um dos últimos andares.

-Nossa! Mas imagina quando acabar a luz hein? Vamos ter que subir tudo de escada. -Ele brincou.

-Mais alguma coisa? Tamanho da cozinha, da sala, número de quartos e banheiros, garagem? -Perguntou o corretor.

E você respondeu tudo com perfeição. Enquanto eu folheava uma revista.

Foi muito difícil dizer adeus. Eu juro. Queria tudo, menos partir, deixar-te ali no meio de tanta gente. Mas a música do fim tocou. Acabou mesmo sem chegarmos no ponto final.

Talvez se eu não vivesse atrasada poderíamos ter vivido essa história. O problema é que eu só tinha cinco minutos pra subir uma porção de escadas e bater meu cartão. Então eu espero que amanhã você saia no mesmo horário e se distraia do livro em algum dos balanços pra perceber que estava te admirando num assento bem pertinho.