7 de mar de 2016

Aceitação


Eu tenho manias e acho que todo mundo sabe. Uma delas é achar problema onde eles não existem. Cresci sendo muito crítica comigo mesma e do mesmo jeito que isso pode funcionar, também pode ser uma fatal. Eu sempre arrumei defeito no meu cabelo, no meu pé, no que eu escrevo, no que eu ouço, na minha voz e em tudo. Com o tempo isso foi aumentando, então eu fiquei crítica com os outros. Como se eu fosse a jurada da vida de todo mundo que entrava no meu campo de visão. Não só da vida, mas das roupas, das opiniões e de tudo. As notas das minhas plaquinhas de juri nunca passavam de 6,5. Mas da mesma forma que alguém que rói as unhas tenta parar eu tentei parar com a minha mania também.

Não dava pra passar um esmalte com gosto ruim no meu cérebro. Mas dava pra passar um esmalte com gosto bom no que eu criticava, começando por mim. Me olhar no espelho sempre foi algo automático, mas olhar e ver dentro era algo que com certeza eu nunca fiz. O que eu via dentro, eu não conseguia ver fora. Então eu precisava mudar fora. Sendo mulher isso sempre começa pelo cabelo, é claro. Fiz algo que pra quem nunca fez não é nada. Mas pra quem já fez é algo l-i-b-e-r-t-a-d-o-r. Sim, parei de alisar minhas madeixas. Não que isso seja errado, não que alisar o cabelo seja um crime. Mas eu subia a plaquinha seis e meio pra quem tinha cabelo crespo/cacheado e alisava.

Um novo cabelo -que na verdade era velho- uma nova pessoa. Identificar meu eu interno e externo me fez ver que muita gente não consegue ser quem é por pessoas como eu -a velha eu. Quem não usa uma roupa porque "não é roupa pra esse tipo de corpo", ou quem não faz algo porque com certeza alguém vai criticar, ou qualquer coisa que sendo bom ou não o julgamento o impede de realizar. Foi ai que eu joguei nove plaquinhas fora e fiquei com a de número dez.

Eu levanto dez quando vejo um cara de chinelo, shortinho de pijama e regata no shopping. Eu levanto o dez quando uma baixinha usa saia longa. Eu levanto o dez quando uma gordinha quer emagrecer pra cuidar da saúde e não pra caber no 34. Eu levanto o dez pra quem, assim como eu, parou de negar as origens, parou de ser escrava da escova/chapinha e usa o cabelo que Deus deu. Eu levanto o dez pra todo mundo que tenta quebrar preconceitos, pré-conceitos, ideias machistas etc dentro de si. Eu levanto o dez pra quem parou de se importar com a vida do outro. Eu levanto o dez pra todo mundo que parou de se preocupar com a opinião dos outros e foi viver, foi ser feliz de verdade, foi ser quem é. Quem sempre foi.